sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Ser ou não ser... mané



Mané. Não existe melhor palavra para definir certa espécie de gente que não hesita em ser rude e individualista quando se sente ameaçada. Ou mesmo quando não sente nada. Afinal, em geral o mané não sente muitas coisas não. A sua sensibilidade não costuma ser muito apurada...

Mas o que é ser realmente "mané"? Esse adjetivo, tão pequenininho e sonoro, cai como uma luva na caracterização desses seres que se proliferam por aí, e que por isso merecem esta justa "homenagem".

Ultimamente tenho ouvido falar muito sobre eles. Não tem sexo, idade, cor, raça ou classe social que não sofra a interferência ou não perceba a disseminação de manés em solo nacional (talvez a maior concentração esteja no Rio de Janeiro, mas isso aí já é um "chute meu", bastante questionável). Não que manés não existissem antes, nos tempos de vovó e de mamãe. A diferença é que naqueles tempos um mané costumava ter vergonha de ser mané (o que nos leva a crer que não haviam verdadeiros espécimes em cena). Mas hoje em dia algo parece estar se modificado, e acredito que eles estejam até mesmo na moda.

O mané talvez seja a grande figura do século XXI. Mané para valer é aquele que não tenta disfarçar essa condição. Pelo contrário: ele não está nem aí para disfarces. Simplesmente é e ponto.


Ser mané traz algumas vantagens: sobretudo o fato de que a vida fica muito mais simples, já que não há quase com o que se preocupar.

Mané pode ser homem ou mulher, e se manifesta com maior riqueza de sintomas em situações de conflito (como por exemplo no trânsito, na fila do banco, em momentos de cortes na empresa, ou desgaste no relacionamento). Em suma: o mané se revela de verdade em situações nas quais seu caráter é posto em questão. Mas é preciso frisar que mané que se preze não liga para esse negócio de caráter. Ele tampouco é um "mau caráter" (talvez tenha preguiça). O mané é mais ingênuo. Simplesmente vai vivendo... Não tem o propósito de prejudicar ninguém. Contanto que não o prejudiquem. E se prejudicar também... aconteceu. Fazer o que?

Se você já lembrou de alguém com esse perfil, continue comigo. Vou tentar desenvolver a minha definição do termo...

O mané acha que está "abafando", "abalando geral" justamente nos momentos em que é mais baixo e vil. O mané se orgulha de feitos dos quais deveria se envergonhar. E se envergonha de atitudes e sentimentos nobres (que porventura possa ter experimentado) os quais deveria respeitar.

Um mané nunca ama e se entrega a ninguém, porque isso seria coisa de "otário". E quando ama e não se sente retribuído "à altura", pode vir a se sentir um "idiota". E lamentar ter "amado". E o mané ama? Não. O mané calcula e cobra cada centavo de dedicação que devota a alguém, porque em geral tem baixa capacidade de doação. Não percebe que gostar vale por si mesmo, que amar aquece a alma e amplia o espírito.

O mané só entende a vida em termos de "pede e ganha". Se alguma situação ou pessoa não dá "lucro", ele simplesmente chuta tudo pelos ares e desdenha o que deixou para trás. Ele vive apenas o tempo presente na plenitude de toda manezice. Não aprofunda sentimentos de apreço, ou de gratidão. Não valoriza passado nem futuro. Vai vivendo a vida como quem vai ao shopping sem a menor intenção de comprar, como quem vai à festa sem intenção de comemorar, ou quem sai com amigos sem vontade de conversar. Simplesmente segue na sua trilha, fazendo o que lhe dá na cuca. Pensando bem... mané não costuma ter cuca (palavra tão simpática, que remete aos bichos-grilos, tão mais poéticos). Mané tem cabeça para usar boné, gel, topete, ou para decidir se avança ou recua, se omite ou compactua.

Já que tenho falado das "nights", vamos definir essa subespécie "mané noturna". Dizem por aí que ele(a) não tem pudor em ignorar torpedo, email, ligação ou sinal de fumaça. Responde quando dá na telha. Se não dá também, pra que responder? Antropólogos dizem que esse comportamento é mais comum em macho do que em fêmea. Mas não há regras (a proporção tende ao equilíbrio). Outro dado é que o mané pode passar dias, até meses, ou anos, ignorando manifestações de carinho e amizade do sexo oposto. Sua cara de pau (outra característica marcante) permite que, ainda assim, ele acione o caderninho de telefone se por acaso vir a lembrar da figura que tanta indiferença inspirou. Prepare-se: ele pode a qualquer momento te ligar. Sobretudo naqueles momentos em que você não está mais ligando a mínima. Mané ressurge.

Ao mané, não interessa muito nenhum desses assuntos sobre os quais estou escrevendo, até porque ele não se interessa muito por quase nenhum assunto. Gosta mesmo é de rir um pouco sobre quase todas as coisas. E isso basta. O mané quer o que o apraz no momento (e isso se modifica com muita facilidade e velocidade).

Uma das melhores definições para essa espécie é que ela não tem auto-crítica. Mané que é mané sofre de uma espécie de cegueira que não permite vir à tona a percepção do quanto foram (ou são) estúpidos (manés) com os outros.

Uma coisa que me parece importante lembrar é que todos nós podemos ter momentos "manés". Mas se não formos "manés" autênticos ficamos propensos a corrigir a rota, mudar o rumo e retornar à condição humana, sujeita a erros e desejosa de acertos.

Nós, os "não manés" por natureza, nos arrependemos e pedimos perdão. Olhamos nos olhos, reconhecendo eventuais "tropeços", e crescemos com a "manezice". Mas mané que se preze, não! O tempo os torna, ao contrário, a cada dia mais e mais... manés. Você já viu por aí um verdadeiro mané arrependido?

O mané é meio ressentido, desconfiado. Deve ter problemas sérios de infância. Ou simplesmente pegou gosto pela coisa, já que faz tanto sucesso e conta com boa fatia de público.

Tal como acontece na natureza, a existência da espécie "mané" parece ter sua razão de ser na cadeia reprodutiva humana. Eles parecem existir para que os demais se tornem mais sagazes e espertos. Para que os demais se enobreçam, se amem e se multipliquem ainda mais.

Com muito mais senso de urgência e felicidade.

8 comentários:

Anônimo disse...

Juca,me lembrei daquela música da tv pirata "Malandra que é malandra mesmo, não dá mole para mané".
Quando algum destes sintomas for detectado, fuja. E nem tente se convencer que o sorriso é bonito e que ele no fundo tem um coração. Pois na verdade essas pessoas não sabem amar mesmo. Isso é uma escolha? Não sei. Às vezes não foram amados o suficiente. Adorei o texto. Muito engraçado e inteligente, só fiquei na verdade com peninha dos manés, pois deve ser triste não saber nadinha sobre o amor.
Beijinhos lica.

... disse...

Uma vez, depois de ter passado muito tempo, quando já não sentia mais nada por uma mané eu vi o quanto eu fui mané por ter gostado dessa ...
O que eu não entendo é como os/as manés conseguem pegar em nossos pés.
Na verdade isso não aconteceu só uma vez...

Fabricio Vinhas disse...

Mas é bom lembrar que não existiria malandro se não fossem os manés.
Talvez seja essa sua função no universo.
:)

Troiana disse...

Se o cara nasce mané, cresce mané, morre mané, mané, mané....
Lembra dessa música?
Rsrrsrsrss
Bjssssssssss

Alan DB disse...

Muitos conflitos de definição... Porque, a meu ver, o mané definido aí é o que se acha malandrão. Se ele deixa sentimentos nobres de lado, é rude etc, você acha mané aqueles que consideram quem tem sentimentos nobres uns manés... hehehe Logo, todo mundo tem manés em suas vidas. Até os manés. Bem, eu já me senti mané muitas vezes... confesso. Mas, na maioria das vezes, eu era mané aos olhos de outros. E tinha quem não me achasse mané. Enfim... Talvez ser mané é como ser chato... Todos temos um pouco. Sem que saibamos... O que vale é definirmos até onde nós podemos ser. Ou não?

Anônimo disse...

Meu namorado é espanhol e eu sempre o chamo de Mané, qdo a gente foi pro Brasil o povo ria deu chama-lo de Mané, mas ele sabe que é carinhosamente.
Tb chamo meu profesor de capoeira de Mané..e damos umas boas risadas juntos

COM disse...

BEM ESTAMOS FALANDO DOS OUTROS.TODO MUNDO É MANÉ PRA ALGUÉM E NÃO O É ATÉ O MOMENTO QUE TUDO SE EXPÕE.

tiago.kop disse...

simplesmente gay haha