domingo, 12 de outubro de 2008

Mudando de estação: a humana natureza


Entre as coisas bonitas que ouvi nos últimos tempos, destaco a observação de que cada etapa da vida poderia ser comparada a uma das estações do ano. A infância, com todas as suas cores e descobertas, seria a primavera. A juventude, com a explosão de energia e de força, seria o verão. A maturidade alcançada na vida adulta seguiria pelo outono até chegar ao inverno, tempo em que a gente precisa se abrigar no outro, em tudo o que construímos, e buscar amparo no que nos cerca para preservar o calor. A princípio, isso pode parecer comercial piegas de tevê ou mensagem dessas manjadas, que a gente recebe pela internet. Mas esta aproximação da vida com as estações me fez pensar em algumas coisas.

Um dia, todos envelhecem. E todos precisarão da mão de quem está ao lado para, talvez, atravessar uma rua, subir em um ônibus, enfim, seguir em frente. Interessante é que, quando aprendemos a andar com nossos próprios pés, encontramos nessa suposta “auto-suficiência”, a nossa força. Alguns acreditam tanto nessa “auto-suficiência”, que se tornam extremamente individualistas. Mas assim como acontece lá no começo, com os bebês, a passagem do tempo torna a nos defrontar com a necessidade da mão do outro.

Vejam: a perfeição da existência faz com que todos, um dia, tenham que se curvar aos outros, e ao tempo. E voltar a sentir na própria pele a majestade de tudo o que nos rodeia.

Mudando agora apenas um pouco “de estação”, em tempos de eleição (ainda que tão desgastada eleição) é mais do que tempo de pensar nesses nossos "outros", que andam por aí e às vezes a gente nem repara. A julgar por esta reflexão, os valores do individualismo não são compatíveis com a nossa própria humana natureza.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Intimidade Indecente


A revolução sexual deixou as mulheres, sem dúvida, em situação muito mais confortável do que nos tempos de vovó mocinha. É muito bom saber que hoje em dia estamos em pé de igualdade com os homens quando o tema é sexo. Não há mais tabus, sutiãs e calcinhas para serem queimadas em praça pública. A Rainha está nua. No entanto... acho que tem mulher aí ficando com a auto-estima no pé por não saber usufruir de toda essa "liberdade".

Podem me taxar de retrógrada, conservadora, fora de moda (mané não.. rs). Mas é a verdade. Nem toda mulher, eu diria que talvez a minoria das mulheres, está preparada para agir "igual a homem" quando busca satisfazer seu desejo sexual. Até porque, não é igual. Nesses casos, se aplica a música dos Titãs: "Desejo, necessidade, vontade... a gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor". Mesmo a mais prática, contemporânea e pós-moderna das mulheres acaba esperando algo mais do que um orgasmo quando vai para a cama com um cara. Ainda que seja uma ligação no dia seguinte dizendo o quanto ela é linda, especial, e espetacular.

E quando isso não acontece? Bem, quando não acontece, considerável fatia do público feminino fica se sentindo meio mal, com vontade de devorar dez barras de chocolate, procurando mergulhar no trabalho ou se enfurnar na academia. Tem aquelas que se convencem de que não é nem um pouco importante o cara ligar. Afinal, também nós podemos ter o gosto de dizer o quanto eles foram e são lindos, másculos e pimpões (hahaha, adoro esta palavra , tão velhinha...).

Algumas vão além. Não sabendo lidar com a ausência de carinho daqueles que não são seus maridos ou namorados (que talvez não sejam nada além de meros des-conhecidos) vão ficando neuróticas, impregnam o homem de mensagens, torpedos, sinais de fumaça. E acabam se sentindo incapazes de se relacionar. Existem ainda outras, que simplesmente “diversificam o foco”, entram em uma roda viva de transas e mais transas e, em vez de prazer, experimentam uma terrível sarjeta. Fossa total. Tem ainda muitas outras, claro. E eu me incluo nessas muitas outras. Rsrs.

Mulheres são muito misteriosas. Por isso mesmo, acho eu, temos que respeitar esse nosso mistério. Sexo é muito bom, mas antes de tudo é uma intimidade muito grande que nós, mulheres, dividimos com uma pessoa.

Intimidade, para ser boa de verdade, tem que ser conquistada.

Metáforas à La Lula-Lá sobre o arrependimento



Atualmente ando fazendo umas metáforas bem ao estilo do nosso Lula. Imagina aquela pessoa que te arranca o braço e em seguida pede a sua mão? Ou alguém que te despeja uma hostilidade do porte de um elefante e, em seguida, vem com um amendoinzinho dizendo que é o arrependimento?

Pedido de perdão não faz o tempo voltar atrás.

Para certas dores, não adiantam palavras, reconhecimentos tardios. Só mesmo o tempo. Certas feridas só cicatrizam no escuro, no silêncio, e na solidão.

Às vezes memórias ruins somem com as cinzas. Às vezes não.

Imagine o que restou da cidade após a explosão da bomba de Hiroshima... Depois da reconstrução, será que a dor se extinguiu?

Eu perdôo a humanidade, da qual faço parte.

Sei que para evoluirmos precisamos errar, sentir a dor dos outros, e sobretudo as nossas, provocadas por nossa própria limitação.

O cara que soltou a bomba no Japão, para sentir o perdão de cada uma das vítimas e de suas famílias teria que, antes, verdadeiramente, arrepender-se. E perdoar-se.

Morreu louco. Ou já era louco?

À cada um, cabe o peso sentido de seus próprios gestos.


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Pelo caminho



Talvez tão triste quanto a dor da morte seja a dor de uma idéia que decidimos deixar de lado, ou de um ideal no qual deixamos de acreditar.

Deixar para traz sonhos e planos, que por tanto tempo guiaram nossas vidas, faz a gente sentir um vazio e uma tristeza inigualáveis.

Mas às vezes é preciso.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Desculpa mas... eu te conheço?



Aconteceu comigo, deve acontecer com você: como diz a letra de um conhecido pagode, a gente "se apaixona pela pessoa errada". Será que a gente se relaciona mesmo com a pessoa real ou com a imaginada? Qual a porcentagem de realidade e de fantasia que existe nos nossos relacionamentos? E na nossa vida? Já parou para pensar nisso?

Não é novidade: a gente gosta em parte do que a pessoa é, e em parte do que ela poderia ser. Ao menos comigo é assim. Quando decidimos iniciar uma relação, vem junto um pacotinho cheio de promessas e possibilidades. Aos poucos, pode ser que parte deste "pacote" tenha seu prazo de validade "vencido"; parte se revele propaganda enganosa; e parte permaneça a cada dia mais apaixonante. Pode acontecer apenas algum(ns) desses intens. Ou todos eles juntos.

A grande questão é quando insistimos em buscar na pessoa real a pessoa imaginada. Com se fossemos um consumidor que, sentindo-se lesado diante do "produto", em vez de devolvê-lo, trocá-lo ou simplesmente aceitá-lo como ele é, ficamos tentando implementar ajustes. No caso de uma relação, que nada tem a ver com uma compra (graças a Deus!), as adaptações são necessárias. Eu diria imprescindíveis. Mas tudo tem um limite. E é preciso que cada um respeite o seu.

É preciso saber o momento certo de disparar em direção ao outro a libertadora pergunta: "Desculpa mas... eu te conheço?"

Acho que isso vale para todas as relações, inclusive, as de amizade.

O que ocorre, com alguma frequência, é que as pessoas têm dificuldade de identificar seus próprios limites. Ou acreditam que chegou ao limite muito precocemente, sem querer saber de "ajustes" ou, ao contrário, ficam obstinadas em seguir um caminho que há tempos vem se revelando cheio de furos.

Tem muita gente achando que ama quando, na verdade, está é agarrado a uma crença, construída em tempos remotos.

Sábios são aqueles casais que a gente olha e pensa "puxa, como se gostam"... Talvez apenas tenham aprendido a apreciar o movimento, a mudança, e a reverenciar a estranheza alheia.

Aceitar que algumas pessoas não são aquilo que imaginávamos e buscávamos é um grande aprendizado. Simples assim. Nem por isso elas são melhores ou piores. Imagina: se nossos próprios "eus" são tão imprevisíveis aos nossos olhos, o que dizer dos outros?

Cabe a cada um decidir até onde vale abrigar na própria vida a presença desses adoráveis estranhos.

domingo, 21 de setembro de 2008

Relações sem compromisso e a dança do quadrado




Entregar-se ao sentimento é como andar em um vendaval: a gente dá dois passos para frente, três para trás, dois para frente... mas o fato é que a gente caminha, sente o ar batendo no rosto e enchendo nossos pulmões.

Noto que hoje em dia tem muita gente iniciando relações onde já está preestabelecido que o bacana é não se entregar ao sentimento. O bacana é apenas "curtir o momento" (leia-se: sair, transar, rir, trocar algumas palavras de carinho) e se manter distante de qualquer coisa que lembre "compromisso". Não querer compromisso é um "sintoma" manifestado por muitos integrantes da minha geração, e das gerações mais novas.

É como se cada um vivesse girando em torno de si próprio (cada um no seu"quadrado", como naquele vídeo do YouTube que subitamente se parece tão metafórico).

Entregar-se ao sentimento está meio fora de moda, talvez porque modifique a gente de verdade, derrubando nossas certezas, desestabilizando nossas rotinas. Amar, então, dá o maior trabalho. Melhor evitar. Para alguns chega a ser meio aterrorizante, sempre tão misterioso. Amar exige que a gente saia um pouco do nosso universo (do nosso "quadrado"), ultrapasse nossos limites.

O que na geração hippie era chamado "amizade colorida" se degenerou no que hoje o pessoal chama de "rolo". Hoje as pessoas "ficam", "pegam" (esse verbo ilustra bem o tipo de relação em voga). Do termo cunhado para caracterizar o amor livre, parece ter ido embora a "amizade" e ficado só essa coisa meio colorida, meio desbotada, que não ata nem desata. Alegrias provisórias, satisfações instantâneas. Por vezes essas relações são o começo de um caminho. Ou uma experiência interessante. Quem sabe uma divertida forma de exercício da sexualidade. A "coisa" começa a ficar complicada quando se começa a viver mais de uma relação desse tipo ao mesmo tempo. É como querer ver dois ou três filmes de uma só vez. Confunde a cabeça e, no final, fica aquela sensação de indistinção: não se sabe se determinada cena foi de uma ou de outra história. Quem falou mesmo aquilo? O personagem "A" ou "B"? E cadê o sentido de tudo, da experiência vivida? Foi pro espaço.

Sinceramente, não gosto de nada que faça eu me sentir pela metade. Para entrar em qualquer tipo de relação que seja, gosto de me comprometer (o que para mim significa estar inteira, deixar fluir naturalmente o sentimento) e me lançar de verdade. Bom mesmo é voar sem ter o destino traçado. Não quero delimitar onde está o teto. Só assim, tudo (ou nada) pode acontecer.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O malandro e o mané


Nunca escrevi tanto sobre um tema aqui neste blog. Mas sinto que ele tem apelo junto ao enorme público. rs. Devido às inúmeras interpretações despertadas pela palavra "mané" (e os comentários do post abaixo são testemunhos disso), vou tentar delimitar ainda mais o foco para deixar bem claro a espécie à qual eu estava me referindo. Mané, sem dúvida, tem diversas variantes, e o sentido da palavra vai se desgastando com o uso. Ficou realmente banal, sinônimo de "chato", como bem observou um amigo meu.

Eu diria mais. Mané virou também sinônimo daquele ser humano meio nerd; meio prego; meio “bobo chato feio”; ou ainda, meio sem noção. Mané também é usado com sinônimo de “otário”, “fora de moda” (pois é, essa expressão já tá fora de moda...), ultrapassado. Importante ressaltar que esta última definição é disseminada, exatamente, pelos mais autênticos da espécie mané, por esses aos quais eu prestei a homenagem (e que acham que definem o que está 'na moda'). Neste caso, a definição é pura “intriga da oposição”.

Insatisfeitos com a palavra que tão bem se aplica aos seus comportamentos, esses seres decidiram lançar sobre os outros a sua maldição. Mas não cola não.

O Mané do qual eu falava, o manezão mesmo... o que ele guarda de específico em relação aos demais é o fato de não nutrir qualquer espécie de sentido de... gentileza, de consideração em relação ao próximo. O verdadeiro mané, símbolo maior de nosso século XXI, é antes de tudo um individualista.

O malandro de ontem talvez tenha se tornado o mané de hoje. Mas acontece que o malandro de ontem (que ainda existe por aí) é cheio da ginga, é aquele conquistador que não esconde o fato de ser um conquistador. É aquele cara que, dentro da sua malandragem, joga limpo. Digamos que na fila do banco ele cederia o lugar para a velhinha, (quem sabe para o velhinho), para a grávida ou para a moça.

O malandro de ontem é, antes de tudo, um amante das mulheres. Em situações de conflito, ele daria um jeito de sair ileso (mas torcendo muito para não prejudicar ninguém).

O Mané de hoje, ao contrário, é antes de tudo um amante de si mesmo. Se você for investigar a vida dele, notará que não se dá bem com o sexo feminino (a começar com a mãe, a irmã ou a avó). Podendo salvar a própria pele, ele salva. E não quer nem saber o que aconteceu com a “sociedade” à sua volta.

Acho que tá aí a diferença. Eu proponho a volta do malandro!

A volta do malandro
(Chico Buarque)


Eis o malandro na praça outra vez

Caminhando na ponta dos pés

Como quem pisa nos corações

Que rolaram nos cabarés

Entre deusas e bofetões

Entre dados e coronéis

Entre parangolés e patrões

O malandro anda assim de viés

Deixa balançar a maré

E a poeira assentar no chão

Deixa a praça virar um salão

Que o malandro é o barão da ralé