domingo, 10 de outubro de 2010

Amizade entre ex namorados - é possível?





Haviam se separado há mais de uma década. Às vezes, ao meio dia, ele telefonava. Dizia para ela sintonizar no “canal X” – já que a tevê transmitia uma entrevista imperdível. Outras vezes, de noite (e mesmo à meia noite) ele ligava. Anunciava que iria escovar os dentes e depois dormir. Então trabalhavam, tomavam chope, e até café da manhã degustavam, juntos. Contando, ninguém acredita. Entre este ex casal, nada mais existe além de uma bela, verdadeira e profunda, amizade.

Há quem acredite em vida após a morte, vida além da Terra, em político honesto e em amizade entre ex namorados. Pois eu declaro, sem qualquer vestígio de vergonha, que faço parte deste grupo de pessoas. Ainda mais depois de ter ouvido, há pouco, a história relatada acima. Credulidade? Digamos que eu seja uma pessoa esperançosa. Dessas que procuram ver a vida do modo mais improvável, de ângulos inusitados. Sempre com boa dose de fé.

E amizade é o que de melhor levamos – alguém duvida?

Além disso, confesso que sou um ser teimoso, “com a lua, regendo os afetos, no signo de touro”, observaria um astrólogo. O que torna qualquer tentativa de preservar algo de bom... tentadora. Mas, muita calma nesta hora! Para que a amizade floresça é preciso tempo. É preciso superar as mágoas do final do relacionamento e, sobretudo, não fazer da amizade aquela desculpa para outro tipo de reaproximação.

Ex namorados são os caras que em geral melhor nos conhecem. Se a relação acabou, quem sabe não dá mais certo em outro “formato”? Mas – novamente - atenção! Amizade boa entre ex simplesmente acontece. Só mesmo o bendito tempo nos indica quem veio para passar, ou para ficar. Como diz Mario Quintana... “Amizade é um amor que nunca morre”.

Quando digo “amigo” não me refiro necessariamente àquele que te liga quase toda semana, para quem falamos sobre os novos pretendentes ou com quem compartilhamos os melhores filmes em cartaz. Um ex namorado não suportaria tudo isso assim, de uma vez só. E nem você da parte dele! Aqui o que eu chamo de amizade é aquela doçura, o acolhimento de quem já teve você nos braços e sabe do seu valor e importância no mundo. Isso é possível entre ex namorados, ficantes, amantes, mulheres e maridos.

Tenho um amigo - ex namorado - que já me deu um empurrãozinho para um belo emprego. Quando preciso, ele surge como um anjo, em diversas situações. Tem outro que sempre liga no dia do meu aniversário – e eu, no dele. Quando nos encontramos é aquela alegria. Tão boas as lembranças. Outros, não ligam. Mas a gente sabe que se importam.

Tem ex que rende ainda alguns beijos. Que vale um abraço gostoso. Mas lá no fundo - você sabe – não pode oferecer algo mais. Tem ex que ganha sobrevida, ex que toma chope em boteco, conta sobre as atuais, apresenta a noiva, e tenta te dar beijo com gosto de língua. É a melhor das sensações. Afinal, beijo com gosto de língua indica que a atração realmente se foi. Ficou a amizade.

Claro, existem aqueles caras que te deixam tão somente com uma “baba” de ódio no canto da boca, tamanha falta de amizade e compreensão. Mas esses são mais fáceis de abrir mão. E também esses, abençoados pela amnésia cumulativa que vem com o tempo... estão sujeitos à dádiva do perdão.

Mais do que nunca, acredito que a amizade seja o verdadeiro amor - bem-sucedido. E que o verdadeiro amor só existe quando fundado na mais profunda amizade.

Este post é uma homenagem aos “ex”. Que mesmo quando mortos, seguem vivos. Nos tornando melhores, piores, melhores... mais espertas, e maduras.

Sobre homens e mulheres


Festival do Rio se despede da cidade, e para quem tiver oportunidade de assistir, recomendo enfaticamente “Las viudas de los jueves”. O filme me instigou já desde o título – “Viúvas sempre às quintas”. A exibição se manteve à altura: as imagens são de uma beleza plástica, envolvente, irretocável. E os atores e atrizes, igualmente irretocáveis. Já na primeira cena somos sugados pela trama ao ver corpos de homens que mais parecem estátuas gregas submersos em uma piscina igualmente - e dramaticamente - bela. Parece até uma pintura, um ballet.

Não vou narrar a história, baseada no livro de Cláudia Piñeiro. Deixo para cada um a surpresa da descoberta. Escrevo apenas sobre algumas de minhas impressões. O cenário me fez lembrar “Match Point”, de Woody Allen. Em vez da aristocracia londrina, no filme de Marcelo Piñeyro quem desfruta de mansões, jardins verdejantes e intermináveis quadras de tênis é a elite de Altos de la Cascada, bairro fechado de Buenos Aires, espécie de grande condomínio. O pano de fundo é a Argentina dos anos 2000, mergulhada em uma crise não menos dramática do que o imenso vazio no qual afundam aqueles corpos sublimes.

“Viúvas sempre às quintas” me pareceu, sobretudo, um filme sobre a relação entre homens e mulheres, com uma temática bastante atual. Crise econômica, de valores, dos sentidos - total falência de vidas dominadas pela ostentação do consumo e pela sedução do dinheiro. Sempre às quintas-feiras, aproveitando a ausência dos respectivos maridos que se reunem para jogar, as mulheres - por este motivo chamadas de ‘viúvas’ – se encontram também.

O filme faz pensar nos papéis ainda hoje – não raramente - assumidos pelos casais. De um lado, homens provedores, esportistas e descolados. De outro, futeis e delicadas mulheres que projetam suas vidas nas costas desses maridos igualmente frágeis, embora cheios de músculos. Se você olhar à sua volta, inevitavelmente encontrará casais assim. Homens e mulheres, casados ou solteiros, que se comportam deste modo: um como anteparo e espelho do outro. Revelando e sustentando imagens difíceis de se carregar.

As vidas das ‘viúvas’ daquele condomínio parecem girar em torno desse ideal masculino de solidez, firmeza, poder, virilidade. Pouco espaço para dúvidas, reflexões, questionamentos, trocas verdadeiras. Tudo parece feito de papel, artifícios, vaidades, invejas. Além dos maridos, que outros cadáveres aquelas mulheres velam?

No entanto, mesmo no condomínio de Buenos Aires, emergem forças de vida menos pusilânimes, que deixam o espectador com uma sensação gostosa, de verdade invadindo a alma. O filme é desconsertante e faz pensar. Sobretudo para quem, como eu, pouco tempo depois do cinema, acaba esbarrando em nichos de vida bem parecidos com os de Altos de la Cascada logo aqui, após o Morro Dois Irmãos. Vez ou outra, a realidade carioca assombra ao invadir limites debilmente traçados. Mas essa já é outra história, que renderia muitos outros capítulos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Você quer se casar?




Final de semana passado fui a uma festa de casamento - daquelas tradicionais. Acordei no dia seguinte com a sensação de ter ido a várias festas e, ao mesmo tempo, não ter ido a nenhuma. O motivo? São todas muitíssimo parecidas. Claro, as pessoas que se casam são diferentes, existem os laços afetivos, etc e tal. Mas o casamento, em si, é de fato um ritual, repetitivo, que vai se estendendo pela festa. O ritual começa, para as mulheres, principalmente, horas antes da cerimônia. Uma maratona que se inicia no cabelereiro: hidratação, corte, escova, mão e pé, depilação. Antes ainda, você se preocupa com a "questão" do vestido. Vai usar aquele mesmo centenário, que já foi ao aniversário de oitenta anos da sua avó, e ao casamento das suas três melhores amigas? Ou vai dar uma variada e pegar emprestado o da sua prima?

Bom, o sapato você pode usar aquele meio surradinho porque ninguém vai perceber. De todo modo, você faz a unha, para não pegar mal caso alguém repare. Depois de perder horas do seu dia nos preparativos para o casamento, e separar aquela bolsa guardada faz uns quinze anos para ocasiões especiais, você percebe (eu sempre percebo) que aquele par de brincos e cordão não estão mais guardados no mesmo local. Simplesmente sumiram. E o perfume? É comum só lembrar dele quando já fincamos os saltos na rua. Mas... tudo bem. Você dá o seu jeito, afinal, não é nenhuma patricinha de Beverly Hills. É uma mulher descolada do século XXI que não precisa seguir essas regrinhas todas da etiqueta social.

A outra parte do ritual se inicia quando chegamos no templo do casório. Os "anjinhos do mal" entram em ação na sua mente, sussurando uma série de pensamentos irrelevantes. As mulheres se olham, examinam detalhadamente os vestidos umas das outras. Comprou onde? Que lindo! Perguntamos qual foi a loja e, por segundos, chegamos mesmo a acreditar que no dia seguinte, cedo, passaremos lá para comprar um igual, se estiver em liquidação. Os homens que não costumam usar gravatas são também alvo de comentários. Hum... gostei de ver heim! Embebidas em pensamentos deste estilo, sentamos nos bancos da Igreja. Olhamos a imagem de Cristo. Reparamos na maquiagem das mulheres, das mais jovens às mais velhas. A pintura vai ficando carregada e os vestidos, mais largos. Até que viram um amontoado de panos e tiras, que deixam as formas bem escondidas, nas velhinhas de noventa, cem anos. Têm aquelas sem noção, sempre têm.

A missa começa, você torce para o padre ser breve, os olhos das almas emotivas quase se enchem de lágrimas, e embora você considere aquilo tudo um pouco cafona, uma partezinha sua, perdida nos confins do inconsciente, lembra dos finais felizes das novelas de sua infância, e - pasmem - quase pede a Deus para se casar de uma forma parecida. As músicas, as crianças correndo com alianças, quanto mais pequeninhas e fofas, mais angelicais, melhor. Em geral os pequeninos com alianças não seguem o caminho até o altar, empacam no meio do percurso, gerando certa tensão - logo dissipada pelas mãos de um adulto, que vai puxando os bracinhos do(a) fofinho(a) em direção ao casal.

Se rola empatia entre o casal, você torce para que tudo siga bem na vida dos dois. Em geral, faz parte da cerimônia os noivos sorrirem um para o outro. Se olharem nos olhos e se beijarem. Na festa, o noivo é levantado pelos amigos, sofrendo uma espécie de influência das cerimônias judaicas (essas, sim, bastante divertidas). A trilha sonora começa com músicas ao estilo New York, New York, embalos de sábado a noite, coisas dos tempos da brilhantina. Dos anos 70, o tempo corre para os anos 2010, e o pessoal de meia idade começa a dar o fora da pista. Então começam as músicas de boate tipo Nuth, Hip Hop, Funk, e depois algumas dos anos 80, bandas nacionais. Os caras te olham com olhar interessado e meio cerimonioso. Você emite o seu "u-hú" bastante adequado ao ambiente e levanta os braços em direção aos céus. Festa de casamento é o maior zero a zero. Afinal, você não deseja ficar se atracando com ninguém na frente da sua tia avó. Nem macular o clima de pureza angelical à lá vestido da noiva. A noite é toda dela. Ou melhor, deles.

Lá pelas tantas, após ter ingerido algumas caipifrutas, pensado na beleza do matrimônio e acenado freneticamente para os seus familiares te acompanharem com Claudinho e Bochecha na pista... você começa a sentir sono. A decoração, os vestidos, os sorrisos, a música, o local, por mais lindos que sejam... Todos tão parecidos. Tudo se passando como uma grande reprise de "sessão da tarde". Às vezes surgem aquelas fotos dos noivos em um telão, tem as sandálias havaianas, em geral de número bem maiores ou menores que os seus pés. Tem também as anteninhas coloridas para botar na cabeça e bancar o maluco beleza. Mas de maluco beleza, festa de casamento não tem definitivamente nada. Muito pasteurizadas e caretas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A pequena grande força do acaso



Uma das melhores descobertas dos últimos dias foi o filme O Pequeno Nicolau, baseado na história do ícone francês que tem carisma equivalente ao do personagem "Menino Maluquinho" brasileiro. À princípio, achei a história leve, divertida e sensível. Mas conforme o tempo foi passando, passei a gostar ainda mais deste filme despretensioso, e que por isso mesmo é de uma simplicidade especial.

O filme é interessante por conseguir transportar o expectador para a perspectiva infantil. É como se por duas horas passassemos a ver o mundo pelos olhos do menino, e de forma bastante próxima daquele olhar da nossa própria infância. Nicolau é uma criança bastante sonhadora, imaginativa, que tem alguns amigos com personalidades igualmente marcantes. Algumas passagens do filme são tão bonitas justamente porque bastante singelas. A narrativa é marcada por uma naturalidade que nos faz rir com os personagens.

O imponderável me pareceu o aspecto mais interessante do roteiro do filme. Toda a história é apoiada na imaginação do garoto, que fantasia a chegada de um irmãozinho e acaba se envolvendo nas maiores confusões, por acreditar que será abandonado pelos pais e trocado pelo irmão. Enquanto isso, o pai da criança procura de toda forma ser promovido no trabalho, tentando oferecer ao chefe um jantar, impressioná-lo de alguma maneira, o que se mostra estéril.

O casal não anda bem, briga por qualquer besteira, e a atmosfera da casa é tensa. Mas, de repente, quando menos se espera, o pai de Nicolau evita que o chefe seja atropelado, de forma bastante banal e espontânea, sem qualquer intenção de "impressionar". Um gesto aparentemente bobo acaba fazendo com que ele obtenha a confiança do patrão, e tudo ao redor de Nicolau começa, como que magicamente, a melhorar. O que ficou para mim, do filme, é a idéia de que todos querem controlar seus destinos, mas alguma coisa que escapa, essa força do imponderável, é o que acaba construindo a história real do pequeno Nicolau.

Bacana pensar, já muito distante do cinema, como a gente às vezes se empenha tanto para alcançar, ou evitar, alguma coisa, e de repente, "magicamente", a vida dá um jeito de resolver o que parecia nebuloso. Mesmo as frustrações, que no mundo infantil são ainda mais intensas, têm o seu lugar. Quem não viu, veja.

Como os nossos pais



Ouviu um carinha com quem se relaciona dizendo: "serei sempre assim, é de família, meu avô também era assim"? Então saia correndo. Pessoas que se negam a evoluir espiritualmente merecem "apodrecer no mármore do inferno".

Não me acho perfeita, mas minhas imprefeições não se devem à recusa em tentar modificá-las. Ouço as críticas, quando elas são construtivas, e acho que já mudei muito ao longo da vida graças às críticas construtivas.

Já ouvi essa frase por duas vezes ao longo da vida. Em geral, vem de pessoas que preferem não enxergar as próprias mazelas à fundo, e que de certa forma (pasmem) orgulham-se delas. Certa arrogância pode vir travestida de (pretensa) sagacidade. Ou um bloqueio (sério) afetivo de independência emocional.

A melhor definição desses tipos que desfilam por aí se gabando de suas imperfeições partiu há alguns anos de um astrólogo: "manequim de velório". Imagem triste, não? Contraditória. Ninguém imagina um manequim em um velório. Mas é que a beleza desses seres quase imutáveis esconde uma certa tristeza, petrificada na ausente possibilidade de mudança.

Eu já me afoguei diversas vezes pedindo a mão de quem não deseja mergulhar. Há quem prefira viver na superfície. Direito de cada um. Mas cansei também de um certo papel messiânico de desejar levar luz às trevas. Quero levar luz a quem me iluminar, claro. Pessoas que se acham muito sagazes, críticas, ou acima da maioria dos mortais não merecem mais minha energia, empenho e dedicação. Inteligência sem sensibilidade não leva a lugar algum. Nada de manequins de velório!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Back to the night - tendências no cancioneiro carioca


Dançando forró no Democráticos constato que as cantadas agora também se aprimoram na tendência da especialização e da segmentação de mercado:. "Jornalista? Hum... você poderá então fazer um furo de reportagem com uma notícia que eu te darei como biólogo: a descoberta de uma nova jazida de..". Tentou a especialização pela via profissional, não foi feliz. Em seguida, explicando o passo de dança: "Esse passo chama-se volta ao mundo, cole sua testa na minha, agora a bochecha, agora o queixo" (o pior é que cheguei a acreditar que se tratava de um dos três novos passos que acabava de aprender) até que ... "agora gire a cabeça 360 graus" .. "Ops! Não conheço esse passo não!". Gente boa, as cantadas mais generalistas nesses casos ainda são melhores.. E independente desses rompantes de "criatividade" o Demo às quartas é bacaninha mesmo. Outra modalidade que parece estar em voga no quesito cantadas é ligar para a casa da pessoa em horários improváveis como 22h da noite ou às 6h da matina. Comigo ocorreu o primeiro caso, com uma amiga, o segundo. Será que esse povo não dorme? ...

sábado, 5 de dezembro de 2009

Tá na moda ser bobo




Depois de dedicar um post exclusivamente ao mané, escrevo este em homenagem ao... bobo. Se há tempos o bacana era ser sério, hoje em dia está na moda ser bobo. A palavrinha já é por si interessante. Duas letrinhas iguais duplicadas. Bêó-bêó. O bobo, dependendo da capa de “genialidade” que vista nas suas baboseiras, pode se tornar alguém interessante. Em geral, são caras meio desajeitados, sem aquela gentileza dos malandros autênticos, desprovidos da sensibilidade dos românticos ou da capacidade argumentativa dos inteligentes. Claro que não existem rótulos rígios para nenhum desses tipos. Aliás, sou contra os tipos. Mas bobo que se preze não é passível de relativização. Na época da adolescência, fazem a alegria dos amigos. E seguem proporcionando aos amigos o mesmo tipo de alegria juvenil, por toda a vida. Junto à mulherada, o bobo tem essa vantagem do frescor juvenil. Ele te faz rir de um palito, de uma caixa de sapatos, de coisas aparente banais. As piadas do bobo em geral são banais. Mas de tão banais, ficam divertidas. Existe por aí todo tipo de bobo: o bobo playboy, o bobo pseudo-intelectual, o bobo alternativo e descolado, entre outros. Hoje em dia um tipo muito específico de bobo – a ser pormenorizado neste post - está na moda, e por estar “in”, tende a provocar confusão na capacidade de discernimento humana. Esses bobos querem passar por “autênticos”, o que de fato, não o são.

Vejamos como identificar um bobo. Aquele cara que não tem limite, que faz graça de tudo, recorrendo ao humor negro, humor arco-íris, e todos os tipos (em geral manjados) de humor. É fácil imaginar a piada que vem de um bobo. É aquela que ninguém tem coragem de fazer, e o bobo vai lá e.. faz! Acho muito saudável a existência de bobos na Terra, e reconheço algum charme em meio à banalidade nesses seres tão... serelepes. Mas creio que o tema mereça análise mais cuidadosa, em nome de certa tendência que aponta certo tipo de bobo se legitimando na sociedade como verdadeiro mané. Vejamos o "bobo descolado", que é o que está na moda. Muito legal eles sacanearem, por exemplo, os políticos, como fazem os bobos do CQC. Mas a questão é que ficou tão fácil ser bobo (vide a proliferação de grupos de comédia em pé – alguns deles realmente bons - e de programas de TV como Pânico e Cia) que a qualidade da bobeira tende a se degradar mais e mais, tornando-se, sim, nociva à sensibilidade humana.

Quando dizem que o Pânico está tomando a audiência do Fantástico, não estranho. Trata-se daquele fenômeno já anunciado por gente boa (e não boba) de plantão, que alerta há tempos quanto à tendência (perversa) da informação virar entretenimento, perdendo seu verdadeiro foco e sentido. Isso somado ao fato de o Fantástico ser um programa em geral chato, deixando-o em desvantagem em relação à bobeira fácil do Pânico. Mas quando jornalistas se dedicam com afinco a debater histórias como por exemplo aquela da aluna da Uniban, como se fosse uma Leila Diniz contemporânea ... fico à beira da depressão. Brincar, por exemplo, com o suicídio dessa moça, a atriz que fez a professorinha na tevê, é de um tremendo mau gosto. O suicídio cometido por ela não merece ser alvo de piadas grosseiras, como a do pessoal do CQC, que disse que ela se matou “porque teria que contracenar com Alexandre Frota”, ou porque “quem não se mataria, no lugar dela?”. Agora eu pergunto: bobeira ou babaquice? A questão é que esses caras, como são bobos, estão na moda e tem fama, se acham no direito e no dever de fazer uma graça muitas vezes baixa, apelativa e desrespeitosa.

Desconfio que certo tipo de bobo em voga atualmente esteja muito próximo do cínico. Não apresenta compromisso com nada, em nada acredita, a não ser na própria ... fama. O bobo não acredita nem na (pretensa) graça da própria bobeira. Quando legitimado, seja por um pequeno grupo de amigos ou pelo público da tevê, acha que paira alguns níveis acima dos outros mortais.

Defendo a ética e o mínimo de bom gosto na bobeira. Aprecio os bobos inteligentes e talentosos, como o pessoal da finada TV Pirata, como o ótimo Marcelo Adnet, o Arthur Xexéo, entre outros diversos que se dedicam à bobeira com classe e conteúdo. Nesta era do Twitter, ficou fácil ser bobo. O pessoal usa da ferramenta até para anunciar que fez cocô, achando que pode ficar engraçado. A bobeira fácil despreza a informação, a cultura, o conhecimento. Ela é oportunista, vai em cima do que é obvio, reforça os preconceitos, privilegia o mau gosto.

A bobeira fácil é afeita à fofoca, apequena as pessoas e a vida. Eu particularmente desprezo este tipo de (mau) humor. Acredito no poder da inteligência, da bobeira criativa e transformadora. Que sobrevivam os bons bobos. E ponto final aqui nesta baboseira!