sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Viver sem tempos mortos


A opção de assistir ao especial sobre Claudinho e Bochecha na televisão, confesso, quase me arrebatou, pelo que há de inocência e até pureza nas baladinhas só love só love dos rapazes. Mas pela graça do destino (e do ingresso ponto com) acabei indo ver a peça Viver sem tempos mortos, com a belíssima (no melhor amplo sentido da palavra) Fernanda Montenegro. Que mulher linda. Que sensibilidade e emoção ela passa para platéia a cada palavra dita. E que vida cheia de ideais, de idéias, de vontade de construir, desconstruir, reconstruir.

Ver a Fernanda em cena é oferecer a si mesmo uma deliciosa dose de intensidade contra a atmosfera cínica-blasé destes nossos tempos. A gente anda pelo fashion mall, observa aquelas vitrines cheias de belezas inalcançáveis, aquela gente bem tratada, mas quando entra no teatro é que percebe: quantas coisas deixamos fora de nossa vida, não por falta de dinheiro ou vontade, mas frequentemente por acomodação, cansaço, solidão. O que a gente deixa de fora da nossa vida não é (do mesmo modo) facilmente alcançável pelas nossas mãos. Mas tão mais recompensante...! E Fernanda nos lembra disso da forma mais simples, despojada, apenas contando com um banquinho, iluminação exata, e seu talento de atriz.

Na peça tudo é simples, direto, claro. Pensei então que a vida deve ser assim: simples, direta, clara. A partir da peça, penso que conectar-se na vida é arrumar nosso verdadeiro lugar: buscar estar perto de pessoas que se alegram com nossa sensibilidade, que se movem e se alimentam de "matéria" parecida, procurar frequentar lugares e paisagens que nos alimentem e estimulem. Simone de Beauvoir, vivida por Fernanda, encontrou seus verdadeiros "pares" no universo de Sartre. Nem mesmo uma paixão arrebatadora, como a que ela viveu com o americano Nelson Algren, foi capaz de fazê-la desistir desta sua primeira verdadeira escolha, tão fundamental. Não me refiro à escolha por Sartre, mas à escolha pelo que alicerçava sua vida: seu ambiente cultural, suas crenças, ideais, seus amigos, sua cidade, forma e estilo de viver.

“Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves" é um slogan de maio de 1968 que deveria se perpetuar por todas as vidas de todos os tempos. Simone de Beauvoir na pele da Fernanda é um pouco de todos nós que não queremos deixar a vida nos levar, que não nos sentimos plenos nesta era líquida de mensagens com números de toques contados. A peça nos provoca de maneira intensa, e sem máscaras. Em cena, Simone (Fernanda) se entrega, se revela, acolhe a própria ambiguidade (inclusive sexual), sem no entanto fazer apologia da frivolidade.

Claudinho e Bochecha têm seu lugar, mas a escolha pela peça tornou o tempo mais vivo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Ainda sobre o fim




Talvez por tudo o que escrevi no post abaixo, o filme "Apenas o fim", que me pareceu razoável, tenha uma força bastante... delicada. Descobri em algum ponto do filme uma beleza que dessacraliza este momento - o fim - temido por tanta gente e, curiosamente, eternizado.
Sim, seja por puro medo, apego, ou, no caso, por amor, nós imortalizamos o fim, o que é certamente um paradoxo. O fim acaba durando muito mais do que deveria.

"Apenas o fim" foi sentido por mim como uma homenagem a tudo o que acontece antes do fim. E depois.

E depois.
E depois.
E depois.




Apenas o fim


Esta semana foi marcada por fatos que me fizeram pensar no fim. Pensar no fim de todas as coisas: dos momentos, dos relacionamentos, da vida. A reflexão teve início quando fui ver o filme “Apenas o fim”. O próprio nome foi, por si só, bastante sugestivo: o fim não é tudo. O fim é... apenas.

O fim é, apenas.

Entre o começo e o meio e entre o meio e elezinho ali, se estendendo ao infinito, muita coisa se passa. Agora eu te faço uma pergunta: Quem é Michael Jackson, o cantor de cara quase transparente e olhos tristes, ou aquele que dançava Billie Jean de luvas brancas e chapéu inclinado na cabeça, com nariz (ainda) mais pra bolachudo, pele quase negra e cabelo quase black power, sem escova progressiva? Para mim, Michael Jackson não é a figura envolvida em polêmicas, que sacudiu o filho da sacada do edifício, e que morreu solitário de algum problema do coração. Este foi ele no fim, foi apenas o seu fim. Mas ele “aconteceu” na trajetória entre o começo e o meio da sua existência, e em algum espaço contido entre o meio e o fim.

Tem gente que esquece de si mesmo em algum lugar do passado - e fica tentando se “copiar” a vida toda, repetindo uma batida monocórdia. Essas pessoas viram máscaras enrijecidas, sem vigor ou expressão. Tem gente que passa toda uma existência sem que talvez nunca chegue a “ser” de verdade. Porque “ser”, eu acho, requer grande liberdade e ousadia. E tem gente que escolhe alguns caminhos... que apequenam, e não correspondem talvez à sua verdadeira estatura.

O fim, nem sempre, está à altura do que (se) foi.

Michael se imortalizou para mim (e para muitos) quando, entre outros milhares de momentos, em pleno estádio do Morumbi lotado, eu pude vê-lo – a olho nú!! – com o corpo inclinado formando 45 graus com o chão. E depois deslizando aqueles pés ao embalo de gritos histéricos de uma admiração transbordante e deslumbrada.

Em algum momento da vida, quando ainda não era um retrato desbotado de si mesmo, Michael inventou um jeito próprio de ser, de se mover e sentir o som, que vai pulsar ainda por muito tempo.

Portanto, este fato que estampa as capas dos jornais de hoje, foi o fim, apenas.

O ponto final que me fez pensar na beleza de tudo o que transborda, e se eterniza.


quarta-feira, 20 de maio de 2009

Caminhando e cantando: Relacionamento Já!


Aconteceu outro dia na Avenida Rio Branco a “Passeata dos sem namorado”, que reuniu cerca de 400 pessoas, de todos os credos, raças e idades. No discurso dos manifestantes, nota-se a ânsia por encontrar aquela delicada serenidade experimentada quando nos sentimos amorosamente ligados a outro individuo. Algumas amigas minhas “tacaram pedras” na manifestação: “coisa de gente que não tem o que fazer”, “o fim da picada”. Já eu não vejo problema no fato dessas pessoas terem se juntado e feito uma caminhada pelo centro da cidade em plena luz do dia. Ao menos se reuniram para dividir publicamente certa aflição que vejo presente aqui e acolá, no discurso de muitas mulheres e de alguns homens.

Quaisquer que tenham sido as reais motivações para o surgimento daquela aglomeração - credulidade, falta do que fazer, pobreza de espírito, vontade de aparecer, ou genuína curtição – eu aprovo. Achei a idéia uma farra. Aprecio movimentos e manifestações, embora seja um pouco triste o cenário que os motiva a existir. Não estou "em busca de um namorado", e acho engraçado quando acontece de algumas pessoas se dirigirem à categoria dos “solteiros” como se tudo o que precisassem na vida fosse de um “par”. Não acho, no fundo, que a passeata seja por namorados(as). Talvez, um manifesto em prol dos relacionamentos. Amizade, para mim, é a espécie de relação mais importante de todas. Se tivéssemos hoje em dia, em lugar dessas “ficadas, rolos e pegações” a velha e boa amizade colorida.. Vejam que diferença! Na década de 60/70, usavam esta bela palavra, e ela ainda vinha seguida de “colorida”.. Hoje em dia... Cadê a amizade? Cadê colorida?

Vejo homens e mulheres se achando super contemporâneos quando na verdade o que fazem é seguir normas de um padrão que diz: tenho pavor de compromisso, tenho horror à relação, não se aproxime demais que eu te deleto! Gostaria de saber quando foi que a palavra compromisso deixou de significar afeto, cuidado com o outro, para significar apenas um manto de obrigações chatas e e cobranças. Compromisso a gente tem com quem a gente gosta, não apenas com marido e mulher, namorado e namorada. É sair um pouco de si e pensar: será que fui sincera(o) quando disse aquilo? Será que agindo assim estarei sendo mané? Relacionamento para mim é troca, é soma. Não tem simplesmente aquele sentido de "comecei um relacionamento". Portanto eu decreto, em alto e bom som, sem medo de ser piegas e deixando de lado a hipocrisia: Eu quero me relacionar! Eis meu manifesto singelo e individual, mas não menos barulhento. Claro, não é qualquer um ou qualquer uma que terá o privilégio da minha emoção. Para alguns, a amizade, para outros, um olhar de empatia, ou ainda minha reprovação. Mas não passo a vida indiferente. E acho que muito mais importante do que um(a) namorado(a) nessa vida é a gente não perder jamais o frescor de sair por aí sem eira nem beira, deliberando seja o que for em movimentos e caminhadas.

Muitas vezes, um namorado até atrapalha...Mas relação de verdade, nunca é demais.

domingo, 17 de maio de 2009

Revolução verdadeira é a que muda o coração


Recomendo o filme: "Entre os muros da escola". A princípio, me pareceu não trazer grandes novidades. Cheguei a achar meio cansativo. Mas, vejam que surpresa, quando cheguei em casa, e já no caminho de volta da sala de cinema para o meu quarto, o filme surtiu bom efeito. Aparentemente chovendo no molhado, ele é sutil e delicado. Quebra estereótipos. O professor bem que tenta alcançar, se comunicar com os alunos, mas não consegue. Acho que devia ser exibido em todas as escolas e universidades. Repito uma frase linda de um forró cantado por um ex eterno amor meu: "Revolução verdadeira é a que muda o coração". Acho que a verdadeira revolução, se vier, virá pela educação. E qual o tipo de educação que nós queremos? Da minha parte, aquela que fala ao afeto e ao coração. Não dá para ficar defendendo um ensino que só fala do cateto da hipotenusa. Ensinar é conflitante, então é preciso abrir espaço para o conflito, acolher o conflito e aprender com ele. Ninguém tem a voz da verdade. Nem os alunos, nem o professor. É preciso muito mais humildade nesta Terra, para que a verdadeira aprendizagem possa florescer por aí.

Sobre sorrir e chorar


Tenho andado sumida, talvez porque ande mais ocupada com a vida do que com reflexões sobre a vida. Bom mesmo é se ocupar das duas coisas ao mesmo tempo: eis o meu atual desafio. Incrível que depois de ter caído, chorado, sofrido, pareço ter ficado mais bem humorada. Às vezes um sorriso brota do canto da minha boca, quando as situações me parecem as mais inusitadas. Um sorriso que vem de um fracasso, mas também, de uma ponta de esperança. E não é que li, na Revista de Domingo, uma frase da Marisa Orth, a atriz, dizendo: "As melhores piadas começam quando a maçaneta sai na mão. É quando a fé acaba que você começa a ficar engraçada". Concordo plenamente. O que seria do humor sem a tristeza?

Hoje consigo sorrir ao ver a dificuldade alheia, sem achar que ela é minha. Hoje consigo sorrir vendo minha própria dificuldade, e penso que um dia, terei outras, não mais essa(s). Experimento outras paixões. Me apaixono a cada dia. A vida é muito curta para ficarmos para sempre chorando. A propósito: a foto não tem relação direta com o post. Eu ia inserir outra, mas veio essa, então deixei o destino agir... e deixei, já que tem o dom da leveza e da graça.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Novas idéias


Voltei, depois de longo tempo em silêncio... Bem, fui ver o filme indiano que ganhou o Oscar, “Quem quer ser um milionário”. Gostei, mas parece uma espécie de novelão. Nada daquilo é muita novidade para quem lê e ouve notícias sobre a guerra do tráfico e os forninhos das favelas, onde se queimam pessoas vivas, condenadas por um tribunal informal.. Tudo isso é muito trash, é um pesadelo do qual a gente sabe que tão cedo não vai acordar.. Vendo esse tipo de filme saio sempre do cinema com vontade de fazer alguma coisa, mas nunca sei bem o quê... Escrever? É alguma coisa, ao menos...

Estou fazendo um curso de cinema brasileiro que simplesmente ando adorando. Vejo filmes do Cinema Novo e me encanto com aquela época de tanto engajamento, de tanta fé na transformação pela via estética, pela via política. No momento, escrevo morrendo de sono, mas cheia de fé e esperança que esses filmes, mesmo quando desesperançados, me fazem sentir.

Cada dia mais, me interesso menos pelas opiniões das pessoas, do que pelas atitudes. Mesmo uma pessoa com uma visão de mundo aparentemente conservadora, pode ser mais aberta à transformação do que uma outra, que aparentemente concorde com tudo o que digo mas que lá no fundo permanece imutável e enrijecida nas suas crenças, e não move uma palha na direção de suas próprias palavras. Ando encantada com atitudes. E com idéias, claro, sempre idéias, que possam se transformar em ação. Se você tem um bom argumento, eu vou certamente parar para te ouvir. Talvez porque esteja também em companhia de um livro sobre o filósofo Sócrates, que adorava, antes de tudo, perguntar, desconstruir. Sabia que a “verdade” não estava nas mãos de ninguém. A “verdade” está sempre em construção e depende do que se observa, e do observador, e de tantas outras coisas... Por isso gosto de pessoas que duvidam, e que se abrem para o que pode vir a ser.