domingo, 6 de outubro de 2013

Fazer o que a gente ama nem sempre é fácil

Fazer o que se ama nem sempre é fácil. Amar o que se tem, idem. Tudo converge para que boa parte do tempo a vida siga mais ou menos. Mais ou menos bem, mais ou menos interessante, mais ou menos instigante. Difícil é tomar as rédeas de quem somos, do que fazemos, colocar a cara dura na janela, e (se) arriscar. Para fazermos o que amamos, muitas vezes, é necessário ir de encontro a algumas antigas convicções. Discordar de parentes, amigos, comprar briga com o chefe ou mesmo pedir demissão do emprego. Não é feliz quem não arrisca. Quem não ousa assumir estar perdido, e começar a buscar um caminho. A vida é feita de pequenos e intensos momentos de encontros, acompanhados de muitos desencontros. A gente cresce ouvindo histórias de príncipes e princesas, meninas se divertem com barbies e, quando mais velhas, assistem a novelas. As músicas nos bombardeiam com um ideal de vida e de amor romântico. Mas nem sempre é assim. Acontece de o príncipe virar sapo. De seus sonhos custarem a se realizar. O fator tempo, e a sorte, entram em cena para tornar este jogo (a existência) ainda mais imprevisível. Mais fácil viver medianamente, já que andamos sempre com pressa. Na pressa, não há tranquilidade para tocarmos e encararmos o que realmente interessa. A vida corre. Cada vez mais. Mal temos tempo de nos olhar no espelho, ou através da janela. Mal cultivamos tempo para cuidar de quem amamos - ou do que amamos. Mas se desejamos ser autênticos, e colocar em ação todo o potencial que carregamos desde o nosso nascimento... (sim, acredito que todos tenham talentos a serem desenvolvidos).. precisamos romper com o já estabelecido. Precisamos sair do conforto, ter disciplina, criatividade, e muita ousadia. A vida planifica, muitas vezes apequena... Mas cabe a gente romper com este manto de normalidade e perguntar - estamos realmente felizes? Eu acredito no que faço no meu trabalho? No que falo dentro de casa? Nosso planeta atravessa um momento de muitas guerras, discórdias e - felizmente - manifestações. Inquietações, interrogações. Que tal olharmos para dentro da nossa casa - nossos pensamentos, nossos corações, e fazermos da vida algo mais ... vivo?

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Futebol, política e religião: é hora de debater – não discutir!



Atualmente atravessamos em nosso país um momento de muita efervescência. Jogos preparatórios para a Copa do Mundo; manifestações por melhorias na política, na economia, saúde e educação; visita do expoente máximo da Igreja Católica, o papa Francisco.

Andando pelas ruas, nestes tempos de guerra e paz no Rio de Janeiro, que confusão: não se sabe quem é manifestante patriota; peregrino; manifestante vândalo infiltrado; peregrino infiltrado; amante de micareta; careta; policial infiltrado; bandido infiltrado; bandido; joelho infiltrado; policial; Mulheres de chico; Francisco... Nossa cidade e nosso país ganharam um ar – ainda que por enquanto apenas nas ruas - verdadeiramente democrático.

Mostramos ao mundo que não somos tão somente o Brasil do futebol e do carnaval. Mais do que nunca, cremos que Deus é Brasileiro e pode fazer milagres. Como levar uma multidão para protestar, colocar os desejos para fora, dizer a que viemos e o que buscamos. Numa nação que parecia dormir em berço esplêndido, isso é muito. É quase um sonho. Ou melhor: um sonho acordado. Sobre o que virá por aí, pouco sabemos. Já protestamos ao lado de estádios de futebol, para chamar a atenção de quem está de olho na Copa. Já fomos ao Congresso, bater panela na porta da casa de políticos, lançamos pedras e sonhos em frente a prefeituras. E agora, vivemos um momento transcendente. A visita de um Papa, que nos lembra do lado de cá e do lado de lá da vida. Um Papa chamado Francisco, que ao menos no nome nos lembra de valores ligados à simplicidade, humildade, generosidade. Embora esses eventos tenham naturezas bastante diferentes - futebol, política e religião – parecem ter sido orquestrados (quem sabe?) por forças astrais que nos fazem sair da rotina. Colocar as bandeiras para fora da janela, refletir sobre o uso que fazemos delas... Olhar para dentro do nosso coração. Exigir mudanças que não podem esperar. Pois nosso corpo é feito de sangue. Nossas veias pulsam, a vida é aqui e agora. O que estamos fazendo da gente? Todas essas reflexões, suscitadas pela inquietação do mundo que nos cerca, não são em vão. Assim esperamos. É hora, sim, de debater futebol, política e religião. Ao contrário do que nos ensinaram desde que viemos ao mundo – "sobre estes temas, não se discute”. Essas três áreas estão envoltas por um componente passional - onde mora o "perigo". Mas a diferença entre futebol e política e futebol e religião... é que o primeiro (futebol) não altera substancialmente a vida de ninguém. Já nos outros dois campos... não circulam bolas e jogadores... mas entram em cena valores e decisões que alteram a vida de muita gente. De forma imperiosa e impiedosa. Mais do que nunca, é hora de refletir, trocar ideias, pensar nossa política, nossa religião, nossas crenças e formas de inserção neste universo. Debate é sempre sadio – a não ser quando uma torcida parte para agredir a outra, apenas porque não compactua com a mesma bandeira. Isso, sim, é vandalismo. O resto é necessidade – urgente – de evolução.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Da vontade de ser mãe


Desde que o Bruno se foi, sem dizer nada, bem no alto da madrugada, andei muda. As palavras pareciam pequenas, sem o superlativo (do) amigo. Ainda converso com ele, todos os dias, talvez mais que antes. E agora, acordando deste grande inverno dos sentidos, percebo que ficar distante do Balaio, igualmente, não me fará bem.

Com a partida do Bruno, também eu me senti menos viva. Por este motivo, volto a falar. Falar da vontade de criar, multiplicar, construir, produzir... que reside no ímpeto da escrita e na vontade de ser mãe.

Coisa estranha, essa, que guardamos no ventre desde que somos pequenininhas e que parece florescer com força total lá pela casa dos 30/35 anos. Algumas mulheres fazem deste desejo o combustível para ir além no trabalho, acolher parentes e amigos debaixo dos braços, construir uma bela casa, edificar um casamento, enveredar por terras distantes e viagens maravilhosas.

Mas, para algumas de nós, a capacidade de gerar outra vida se parece tão mágica que abdicar da empreitada seria como viajar ao Egito sem conhecer as pirâmides.

Estranha a sensação de sermos meio gente, meio animalzinho. Temos um ciclo de vida reprodutiva por meio do qual nos ligamos à Terra e, nesta nossa particularidade humana, sentimos vontade de nos unir amorosamente àquele que escolhemos para andar por aí, vida afora, criando novas vidas.

Vontade de ser mãe é como a vontade de dar o primeiro beijo, experimentar a primeira transa, ou ter o primeiro namorado. É como a vontade de dirigir, de viajar sozinha, ou conhecer novas pessoas. Acontece. Dá o “clique” e, depois que bate, não tem mais volta.

Pois fui “fisgada” por este desejo. Algumas mulheres despertam para esta vontade ainda bem jovens. Outras, não despertam: são despertadas pela criatura já plantada em seu próprio ventre. E “acordam” para a maternidade na marra. Fui acordada por duas meninas, filhas daquele a quem tenho escolhido. Estas doces criaturinhas despertaram a mãe que eu guardava em meu ser, adormecida.

Ser mãe – o que representa isso para tantas e tantas mulheres? No meu (e em tantos outros) caso(s), o desejo está intimamente ligado à feminilidade, ao erotismo. À vontade de se fundir ao ser amado e produzir, com ele, algo que dure “para sempre”, sobrevivendo à nossa própria existência e criando, neste mundo, novos pensamentos, sentidos, alegrias.

Poderia dizer que o desejo de ser mãe é também o de gerar, com o cara com quem desejamos andar por aí, vida afora, nossa maior “obra de arte”. Não há nada mais grandioso, belo e perfeito do que criar, de um amor, um(a) filho(a).

Ser mãe é ter seu corpo modificado por alguns meses, e abrigar nele um ser que te acompanhará por toda a vida. No caso materno, baixa sobre nossa alma e nosso corpo físico uma sensação devastadora de acolhimento e plenitude. A idade parece acentuar o desejo, que trazemos desde que começamos a almejar, para nosso próprio ser, uma família.

Algumas de nós entram em pane, dão curto circuito, ao perceber que a idade passa e a maternidade não vem. Mudam os planos, redirecionam energias, tentam administrar a tristeza pelo desejo (talvez) não realizado.

Claro que, hoje em dia (felizmente) não acreditamos ter nascido somente para dar à luz a uma criatura que precise inicialmente de fraldas, leite e colo. Mas, ainda assim, o desejo de ser mãe é tão antigo e patente quanto a presença dos dinossauros na Terra.

Quando pequenas, nos admirávamos ao observar, na escola, aquele singelo pé de feijão, brotando de um algodão, a cada dia mais forte. Agora, mais velha, sonho com o dia em que terei força e condições de plantar com amor os novos pezinhos a serem fincados neste mundo.

Espero, com calma, sabendo que este dia será fruto da construção de uma história, que deve vir antes de qualquer filho. Uma história de companheirismo e, antes de qualquer outra coisa, amizade. Amizade profunda, encantada e sedutora, a qual chamamos de amor.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Novelas, o bem e o mal na tevê

Não sou uma fã calorosa de novelas. A novelinha da vida real me intriga muito mais. Acompanho de perto o drama de minhas amigas, parentes, colegas de trabalho. Às vezes histórias nem tão emocionantes, cheias de suspense, dor e alegria, mas histórias de vida, que me interessam, emocionam, alegram e fazem sofrer. As pequenas alegrias, conquistas e decepções dos seres humanos são, aos meus olhos, material riquíssimo. E quando eu sou de algum modo envolvida com os personagens destas “tramas”, ou mesmo protagonizo algumas delas, acompanhar as novelas se torna inevitável – as novelinhas da vida real.

A respeito das novelas da tevê, gosto quando se parecem com as tramas da vida real. Nunca gostei de novelas altamente cheias de suspense, intrigas ou luta pelo poder. Porque a vida me parece muito mais que isso. Por este motivo, sempre fui fã daquelas que narram histórias do cotidiano, da vida de pessoas comuns.

Lembro que na infância adorava Top Model, A Gata Comeu. Via no Nuno Leal Maia de Top Model, com aqueles filhos todos, algo do meu próprio pai e irmãos. Lembro até hoje de uma cena em que a Jô, personagem da Christiane Torloni em A Gata Comeu, beijava, um a um, os porta-retratos de seus ex namorados. Um apego ao passado com o qual eu já me identifiquei diversas vezes. Eram novelas despretensiosas, até ingênuas, que me encantavam.

Hoje me vejo capturada pela trama de Avenida Brasil. Praticamente todos os atores desta novela me parecem perfeitos em seus papéis. Adoro ver o núcleo do subúrbio, seu Leleco com síndrome de corno, a excelente periguete e seu namorado gay, a empregada que faz de tudo para criar bem seu filho, e se vê surpreendida pelo rebento marginal. Sem contar com a vilã maior da novela, interpretada pela Adriana Esteves.

Encaro as novelas como fenômeno de massas. Algumas capturam a gente como final de Copa do Mundo. E, se capturam tanta gente assim, algo de interessante ou válido (ainda que um punhado de fortes emoções) elas têm para nos transmitir. No entanto, assisto algumas novelas e me deixo levar por elas com olhar extremanente crítico. Me incomoda ver que a tônica de Cheias de Charme, a novelinha das sete, é o consumismo desenfreado. Ao contrário do que se possa pensar, a novela não é uma “ode” às empregadas, às suas vidas muitas vezes ásperas e cheias de desafios. Tampouco é sobre o poder dos sonhos na vida de um ser humano – o que, por si só, seria ponto para o “bom e belo” na tevê. Nesta trama, tudo o que as “curicas” querem, no fundo, é ser como as “patroetes”. Ter o que elas têm, poder comprar e usufruir do que elas usufruem.

Mesmo reconhecendo estes valores – que de modo algum são os meus – nestas tramas, gosto de apreciar a interpretação de uma excelente atriz, como a Cláudia Abreu. E as músicas grudam que nem chiclete, nos falando de um universo da fama e de um brega chique que a cada dia nos é mais familiar…”Hoje em dia o dinheiro está na mão das modelos, dos jogadores de futebol e das empreguetes”, disse certa vez um dos personagens da novela das sete. Assistir novela não deixa de ser um exercício filosófico e de reflexão antropológica.

Os últimos capítulos têm me incomodado pois as moças passam de shopping em shopping, de cobertura em cobertura, radiantes com a fama que conquistaram graças aos seus hits chicletes. Os autores poderiam evocar neste momento outros valores, outros aspectos da fama.. Mas, ao contrário, parecem buscar alimentar no público o fascínio pela fama, pelo dinheiro, pouco acrescentando de novo a eventuais filosofias e antropologias que poderiam repousar sob a trama – e enriquecer nossa vida.

Também Avenida Brasil.. tem apelado muito – e sido perdoada, por mim, em nome das excelentes atuações. A novela fala da obsessão, da sede de vingança. Mas, muitas vezes, me passa uma péssima sensação, como se na vida não houvesse, de novo, nada além da busca pelo poder, pela revanche, a vingança e – sempre – o dinheiro. Não há sequer um personagem que realmente questione a felicidade que vem com o dinheiro, que realmente faça o público pensar, se alegrar com o “belo e o bom”. Exemplo de dignidade, também a senhora do lixão esconde um passado sombrio e ainda desconhecido do público.

A protagonista da novela sacrifica o amor de toda vida em prol desta sede de vingança. E assim vamos, sendo envolvidas numa sequência de emoções fortes, cenas de suspense quase constante. Nada contra as novelas da tevê. Como disse, vejo, acompanho algumas, me envolvo. Mas, rogo aos autores, que a diversidade e riqueza da vida não seja reduzida ao poder do consumo, do dinheiro e às tramas que só falam às emoções mais fáceis de se alcançar.

O cinema americano está cheio de exemplos de histórias bem contadas e cheias de emoções violentas. Vez em quando, aparece algum revoltado louco no cinema...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Continuação da carta: passeios com Bruno


Bruno deixou por aqui tantas coisas... Expressões superlativas “Noooossa!” “Interessantíííssimo!” “Julíssima!”. Uma gargalhada sonora e gostosa.

Deixou no meu ombro uma marca, do dia em que andávamos de bicicleta pela ciclovia de Ipanema e acabei caindo feio no chão. Foi embora a ferida, mas ficou na pele a lembrança, devidamente suturada pelos raios de sol. Difícil acompanhá-lo, pedalava tão rápido, sempre à frente de tudo e de todos. Corpo e mente em intenso movimento.

Uma vez, quase caí de cara no chão dos nossos 15, 16 anos... Tentava acompanhá-lo de patins, descendo uma rampa no Aterro do Flamengo. O resultado foi fratura num osso que nem sabia existir (descobri que se chamava “escafóide”).

Bruno me fazia perceber a existência de coisas que escapavam ao meu conhecimento. Era desses que ativam nossa intuição. Com ele o tempo era hoje e o momento, agora.

Certa vez acordei em Friburgo com o amigo quicando frenéticamente uma bola de basquete. Intensidade em pessoa querendo viver às 8h da manhã. Em pleno frio serrano.

Tão bom lembrar da volta desta viagem. Estacionados na porta de casa, ele me olha esperto e diz: Vamos agora à Praia da Joatinga? Guardamos as malas e partimos, na hora, para o céu azul e o solzão que expandia aquele nosso encontro.

Em janeiro deste ano, saudosa, reencaminhei para ele uma mensagem antiga. Imediatamente, vinha a resposta:

"eeeeeeeeeeeeee!!!!! que bonito! que surpresa! e que dia bonito hj, tb! quando celebramos o sol, a praia e o mar, novamente? (podemos celebrar a lua tb num banho de mar no posto 6 ou Arpoador...)"

E lá íamos nós, andando e tomando água da coco. Sempre tão pouco o tempo para tanto papo e afeto. É assim que Bruno vive em mim: andando a pé pela cidade, me levando sempre adiante. E eu querendo ficar, apenas mais um pouco, do seu lado.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Carta a um Amigo


Perdi um amigo que para mim era a liberdade. Ele todo era livre, tão livre, que carregava asas. Um dia tentou voar, muito mais alto do que jamais havia sonhado. Saltou amplo no espaço e nunca mais acordou.

Esse amigo para mim é hoje um perfume. O cheiro do incenso que havia em seu quarto. Brisa doce. Barulho de chuva batendo no vidro de casa.

Quando sinto meu peito se abrindo e a respiração pedindo mais vento... é o Bruno quem eu vejo. Nestes dias em que estamos fartos de tudo e temos tanta vontade de uma vida mais bela... Eu tento olhar através da janela: e lá encontro o amigo. Chamando meu nome. Sempre disposto a desbravar um pouco mais do espaço. A explorar ainda um pouco mais a vida.

Bruno não pôde ficar. Não sabemos – nunca talvez saberemos - qual foi o motivo. O que sei, apenas, é que tentou voar. E voou.

Ele, que sempre gostou das alturas. Do alto dos montes, dos morros, das serras. Ele, que sempre soube apreciar a cidade vista de cima, por cima dos prédios, de todos os prédios de cinza e de pedra.

Para mim, Bruno é uma cor, um cheiro tão próprio e muita alegria.

O seu olhar era um jardim florido, como o lá de Friburgo, em dia de sol. Quando ele falava, eu toda acordava, para prestar atenção. Viagens e mais viagens. Muitas vezes, interplanetárias. Ele trazia de seu pensamento muitas pedras preciosas, conchinhas, ouro e estrela do mar.

O Bruno, quando falava, me fazia rir por dentro. Ele era um artista. Maior que Michael Jackson, Madonna ou Charles Chaplin. Muito maior: porque ele era meu amigo. Um grande amigo. O primeiro amor.

Com ele, pela primeira vez, percebi que um homem pode também ser uma pessoa muito sensível. Um homem pode ter ombros largos, bons de abraçar e serem abraçados. A um só tempo, acolher e pedir colo.

Era um homem que percebia a natureza tão própria de cada criatura, com sensibilidade, perspicácia e muita doçura.

Dividia com a gente as adivinhações que fazia, sempre de forma espirituosa e espontânea. Do lado dele, a partir de um certo momento da vida, eu queria apenas me sentar e ouvir. Talvez aplaudir.

Eu pedia conselhos, queria sempre saber um pouco mais de suas impressões. Sobre as pessoas, as coisas, a existência.

Uma vez, triste com o fim de um namoro, fui almoçar com ele em um restaurante japonês, lá no alto de um shopping. No meio da nossa conversa, descobri que eu não estava mais triste. Não tinha um namorado, mas tinha um amigo. O que mais eu podia querer? Prometi ali, para mim mesma, que nunca mais sofreria tanto no mundo, porque, quando me sentisse só, bastava que me lembrasse dele.

Tem coisas que a gente pensa, e se esquece. E a vida passa, e passa a cada dia mais. Voando.

O Bruno dormiu e não mais acordou. Foi embora sonhando, para um mundo onde sonho já não é mais fantasia.

Com este amigo, eu tinha um tipo de relação que temos com plantas e bichos. Não precisamos nem falar. O silêncio era cúmplice. As palavras apenas cobriam com fina camada um horizonte verde, profundo, e farto. Horizonte plantado, regado e cultivado por eras a fio.

Amigo de infância. Amigo de histórias. Irmão em criatividade, em mundo da lua, em vida do avesso.

Juntos, tiramos um dia uma foto, que bem simboliza a nossa amizade: mãos dadas, frente a frente, e nossas bocas abertas em um enorme grito. Olhos bem acordados, gritávamos para o mundo da nossa adolescência. Inquietação, vontade de viver e aprender um pouco mais. Este era o meu amigo.

Este é, para sempre, o meu amigo Bruno.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Luisa está no Brasil


Minha irmã, Luisa, não está no Canadá. Está no Brasil. Com os dois pés bem fincados no chão, anda revoltada com a situação dos desalojados de Pinheirinho, localidade em São José dos Campos que pertence à massa falida da empresa de um investidor de nome árabe.

À serviço da especulação, do lucro desgovernado, o terreno está sendo desapropriado pela polícia paulista.

O destino dos moradores, na área desde 2004, é incerto.

Seis mil pessoas sendo tratadas pela mídia como "vândalos" e "baderneiros". Uns marginais.

O terreno, finalmente, está sendo desocupado. Deu na tevê. É a Justiça.

Felizmente, Luisa, que está no Brasil, não aprovou.

Luisa se chateia, se irrita, chora. (Lá em casa, dizem que ela chorou).

Por que se importar com os moradores de Pinheirinho, se esta noite haverá transmissão do BBB e do fantástico reality show "Mulheres Ricas"?

Luisa é boba... menina ainda.. !

Não sabe de nada...

Não quer vender imóveis nem ver sua imagem estampada em algum outdoor.

Não quer ser modelo, nem posar nua. Tampouco aparecer em propaganda de grandes empreendimentos.

A moça quer, apenas, um pouco de justiça social.

No terreno de Pinheirinho, havia sido construída uma biblioteca comunitária. Totalmente incendiada.

Mas pra que ler, se o que vende é a fama?

Luisa está no Brasil, escolhe este país e quer ser professora.

A moça anda triste. (Lá em casa, dizem que ela chorou).

Existe a possibilidade de, quem sabe, embarcar para bem longe.

Mas prefere os nossos ares daqui.

Luisa não quer saber de pós-graduação em inglês, francês.

Quer mesmo é dar aula em escola pública.

A moça acredita em política.

Felizmente (sim, é verdade!) ainda existem Luisas.

Luisas, e muitas outras, e tantas delas, neste país.

Que saem às ruas, choram, brigam, protestam.

Isso, ninguém me contou. Eu vi.

E não foi na tevê, twitter ou facebook.

Luisa existe: está lá em casa.

No CEP 22061040.

Em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Luisa está no Brasil.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Caiu na rede? Cuidado, peixe!


É possível fazer uma ideia do tamanho do ego de algumas pessoas somente avaliando o número de postagens (comentários, fotos) que inserem diariamente em redes sociais. Se a pessoa não faz parte de nenhuma rede social: parabéns! Que tal, antes de pensarmos neste ser humano como um deslocado sem assunto, imaginarmos que pode se tratar de um homem ou mulher bem resolvido(a), que não precisa alimentar seu ego divulgando aos quatro cantos o que ele ou ela anda pensando, ouvindo, assistindo... fazendo?

Se a pessoa é dessas que insere um número de comentários, links, ou fotos razoável... talvez seu ego seja de um tamanho normal, razoável. Mas... e quando passa de um certo limite..? Pode ser um caso de carência crônica, de ego inflado ou falta mesmo de uma subjetividade mais criativa.

A verdade é que, tenho pensado, a vida real é tão mais bela, intensa e verdadeira do que algumas horas de interação por essas redes sociais... tão mais! A questão é que, agora, aqueles minutos de fama citados por Andy Warhol estão realmente acessíveis para qualquer um. Basta inserir a própria foto em uma página eletrônica, colecionar alguns “amigos”, fazer comentários mais ou menos constantes e tentar tornar a sua vida suficientemente atraente para despertar a atenção alheia.

Mesmo as pessoas que não têm absolutamente nada a dizer sentem-se satisfeitas por serem vistas, “cutucadas”, “curtidas”, enfim, notadas. É uma celebração coletiva da carência – a nossa e a alheia. Tem gente que só falta anunciar o momento de ir ao banheiro.

O comportamento humano também tem me surpreendido nos mais variados ambientes. Já notou no trabalho, como as pessoas agem? Existem aquelas que trabalham, aquelas que trabalham pouco e aquelas que simplesmente não trabalham. O que une todos esses grupos é a vontade cada vez mais constante de mostrar que se está trabalhando. Quanto mais alto as pessoas falam, produzem a sensação de que mais coisas estão fazendo. “Alô? Oi! A planilha eu te enviei. Mas não recebi ainda.. O que? Ah, semana que veeeem? Obrigadaaaa”. Os outros são sempre os incompetentes. As pessoas que falam alto, em geral, trabalham bastante.

Também no trabalho, nota-se a vontade de aparecer, de parecer. Não basta produzir, é preciso ficar bem na foto. Neste ímpeto de ficar bem na foto, muitos se lançam nas chamadas “panelinhas”, movidas por um impulso semelhante ao dos participantes de reality show – não sentir o peso da exclusão. A velha história de entrar no jogo da maioria. Nestes ambientes, florescem as fofocas, os comentários sobre a vida ou o desempenho alheio... Ou seja, a atmosfera de bisbilhotice que originou as redes sociais.

Não precisa ser assim, claro que não. Mas sou contra a proliferação da mediocridade humana, seja em qual ambiente for. Se você caiu na rede, pode ser uma grande alegria. Quem sabe a celebração de um novo espaço coletivo, de um estranho novo comunismo onde todos são quase iguais no que diz respeito ao consumo de fatos e ideias. Mas... cuidado para não virar apenas mais um peixinho morto nesta maré de grandes "novidades".

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Solteira(o) no Rio de Janeiro?


Inconstante, incoerente e superficial. A vida de solteira(o) por alguns momentos te parece assim ? Ouvi recentemente esta definição de uma amiga e fiquei pensando no quanto este aspecto da solteirice já me incomodou. Ser solteira, em alguns momentos, pode se parecer com o estado terminal de alguma doença grave (principalmente se você nasceu ainda na década de setenta, ou, vai lá, no comecinho dos oitenta...). É que nesta fase boa parte das mulheres começa a se encantar com bebês fofinhos que passam no meio da rua, a pensar em esquentar mamadeiras e viver, em família, algo próximo aos comerciais de margarina.

Viver uma rotina feliz, com o homem e os filhos amados bem próximos, em uma casa simpática. Ter um trabalho legal. Poder, vez em quando, viajar pelo mundo, ou pelo país, ou mesmo pelo bairro. De mãos dadas. É ou não é o que boa parte das mulheres (ainda) procura? O mesmo vale para o sexo masculino, com as devidas adaptações. A questão é que esta felicidade nem sempre mora ao lado... Às vezes, acontece de não encontramos a tão sonhada realização por meio da história-margarina. O que fazer?

Para começar... as pessoas não deveriam se definir como “solteiras” ou “casadas” ou “namoradas”. Tem tanta gente casada mais só do que tanta gente solteira. Tanta gente solteira que sabe namorar tão mais do que tantos casais de namorados... E por aí vai. O que agrava a vida de solteira, especialmente hoje em dia, é a superficialidade dos contatos travados entre os sexos. Ainda que seja só sexo, ainda que tenha sido apenas só por uma noite, as pessoas andam muito pouco... criativas, generosas, amigas, cuidadosas.

Se quisermos particularizar a questão, existe um tipo específico de solteiro(a) que age como alguém da Idade da Pedra, puxando pelo braço, agarrando pelo pescoço, atacando na maior sem cerimônia. Sem o menor estilo. Esta espécie, que talvez encontre algum tipo de anabolizante perfeito para se proliferar nas condições climáticas do Rio de Janeiro, também existe, é claro, em todo o continente e por todo o planeta.

Pessoas que dizem que vão ligar e não ligam, que demonstram um afeto falso, que desdenham da consideração e do sentimento das outras pelo simples prazer de alimentar o próprio ego e se envaidecer. Gente que cultiva diversas relações paralelas sabe-se lá para quê. Quando seres como esses topam com gente que, ao contrário, curte se relacionar (ainda que seja durante um simples chope, ou para uma boa transa...) a situação complica.

Nem sempre é fácil identificar esses “tipos” pelos músculos e pelo estilo easy going. Também podem usar óculos e ter cara de intelectual. Ou podem usar saias e ter cara de menina muito sensata. O fato é que pessoas que não sabem – ou não desejam – se relacionar afetivamente existem por toda a parte. Infelizmente, parecem encontrar hoje em dia mais força para reafirmar esta estranha identidade.

Casada(o) ou solteira(o), não deixe que ninguém te defina com base em uma dessas condições que, sim, são passageiras. Não somos, mas estamos. E, estando, vamos sendo... O que importa é o movimento, a nossa busca pessoal, seja pelo que for. Momentos de alegria profunda e genuína experimentamos tendo ou não alguém do nosso lado.

Para escapar da superficialidade, da incoerência e da inconstância, não é preciso que a gente tente, com esforço, se agarrar a uma dessas cercas de fazendinha de comercial de margarina. A busca é mais profunda e, sim, exige algo que encontramos estando ou não solteiras: introspecção e solidão.

domingo, 12 de junho de 2011

Dia do Beagle - 12 de junho - viva o Amor!



Muito me alegra acabar de ler o artigo de um bem humorado colunista que nos informa ser hoje também o Dia do Beagle, o Dia da Rússia e o Dia de Santo Onofre, um eremita que viveu mais de 60 anos no deserto. O que importa neste 12 de junho é lembrar a importância do amor. Sim, por mais piegas e lugar comum que isso possa parecer, o amor ao Beagle, à Rússia, à solidão, devem ser celebrados, não apenas hoje, mas sempre. O amor é lindo, ele move o mundo, etc... Criaram um dia para comprarmos mercadorias em nome deste sentimento tão nobre. Dane-se a data, que ela nos faça valorizar e estimar ainda mais o Amor em seu sentido mais amplo – que anda a cada dia mais multifacetado e colorido.

A propósito, sobre o tema do amor multifacetado e colorido, assisti recentemente a uma entrevista do cartunista Laerte, que assumiu a porção mulher que até então se resguardara, como sendo a “porção melhor que guarda em si agora”. Para quem não sabe, Laerte tem filhos, passou a maior parte de seu tempo nesta Terra como um homem e, recentemente, decidiu se travestir de mulher, num gesto de extrema coragem e ousadia. Ponto para ele – que está redescobrindo o Amor.

Ainda “a propósito”, um filme interessante em cartaz, que tematiza o lugar do feminino e do masculino por meio de uma deliciosa ironia, é “Potiche: Esposa Troféu”, protagonizado pela Catherine Deneuve. Embora ambientado na década de 70/80, o filme traz à tona uma reflexão bastante atual. Sobre o amor em seu sentido mais abrangente, como descoberta do mundo, da política, de si (nós) mesmo(s).

Enquanto vejo muita gente reclamando da falta de amor, ando em um momento oposto. Como o ser humano é interessante! Como a vida é interessante!

Se você não teve a quem dar um presente, compre-o para si mesmo. Ou para o seu cão. Compre um mapa-mundi, localize a Rússia - ou qualquer outro país - e pendure-o na parede da sua casa. Isso nos ajuda a ter a dimensão da amplitude da vida, do espaço, e da pequenez de nossas angústias cotidianas. Enamorar-se é ver a vida de outra forma. E por que precisamos de alguém do sexo oposto – ou do mesmo sexo – para nos provocar esta sensação de maravilhamento diante do mundo?

Se você não (re)descobriu o Amor, faça como a personagem de Deneuve no filme: por mais estranha que possa andar a vida, preste bastante atenção no que te faz cantar: “C’est beau la vie!”.

Sim, a vida é bela! Neste "Dia do Beagle", acredite: não é preciso ninguém em especial para que possamos nos lembrar disso.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Paul para presidente!


Ele sorri para o povo, faz questão de chamar os integrantes de seu eleitorado pelo nome, agradece a todos que participaram da campanha, não poupa esforços para oferecer aos outros o melhor de si, sua a camisa e parece incansável. No rosto, a gente ainda enxerga o mesmo menino que, há algumas décadas, representava o sonho de uma multidão de jovens e adolescentes. Como Paul MacCartney “manda bem”! E faz isso tudo acreditando, profundamente acreditando. Talvez por isso, nos faça acreditar.

Comanda, hipnotiza, com uma suavidade e espontaneidade que faz velhinhos e crianças erguerem os braços, entoando: “I wanna hold your hand”.

Eu não era fã de Paul. Sempre gostei dos Beatles, mas ele, particularmente, me passava uma impressão de ser muito politicamente correto, comportadinho. Que nada. No Engenhão, me rendi ao bom comportamento, ao humor e à receptividade deste eterno garoto de Liverpool. Guiados pelas mãos e pela voz dele, a gente viaja no tempo, e percebe como são raras - e preciosas - as estranhas combinações do acaso - ou destino? - que nos brindam vez em quando com talentos como os Beatles, e o MacCartney.

Quero que Paul administre meu condomínio, faça parte da minha associação de bairro, governe a minha cidade, tome conta do meu estado, presida o meu país. As credenciais que o habilitam ao cargo não têm a ver com o fato de advogar em favor dos direitos dos animais, ser contra minas terrestres ou adepto da comida vegetariana e da educação musical. Nem com o fato de empunhar nossa bandeira e dizer, em quase bom português, "eu sou carioca".

Quero tudo isso talvez porque Paul ainda nos faça - no melhor sentido da palavra - cantar. Com ele, cantamos e cremos, de coração e em coro com Lennon: "All we are saying is give peace a chance" e "All you (we) need is love"...

Paul sabe reger, compor, (nos) tocar, ser. Por meio da música, nos faz vislumbrar outras tantas realidades, em que acordes tristes viram coisas tão belas. Hey Paul... Fenômenos como este a gente nem tenta explicar: apenas reverencia.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Eu te amo eu te adoro - sobre as manifestações do Amor (?)


Acabo de ler um livro curioso, indicado por um amigo. Chama-se "A felicidade, desesperadamente" - apesar do nome, o livro não pretende ser de auto-ajuda. É um livro de filosofia. Ao contrário do que muitos possam imaginar, o tal do desespero do título não tem aquele cunho negativo. O termo é relativo à ausência de espera. A felicidade aqui e agora: sem esperas projetadas para o futuro.

O livro nos fala do modo platônico de ser e de viver, sempre calcado no desejo como ânsia por alguma coisa que nos falta, como esperança de um vir a ter/ser algo. No entanto, essa forma platônica de viver, diz o autor, não traz felicidade. A felicidade seria construída a partir de uma relação de “gozo, de saber e de poder”.

"Não se trata de se impedir de esperar: trata-se de aprender a pensar, a querer e a amar". A felicidade consistiria em nos ocuparmos daquilo que depende exclusivamente de nós, da nossa vontade, da nossa capacidade de imprimir a nossa marca no mundo.

Mas.. isso é tão relativo - não é? Porque antes da vontade de modificar as coisas, e da capacidade agir nesta direção - não existiria então ela: a esperança? O sonho, a fantasia, e – por que não - a espera?

O que é possível e o que é impossível? O que depende e o que não depende de nós? É meio incerto...

A questão é que muita gente se contenta em "ter" ou "não ter" esperança. De um lado, os sonhadores, os "lunáticos", os que esperam, sem agir. De outro, os pragmáticos, ou "realistas". Aqueles que tudo fazem, sem esperar. Mas essa dicotomia só confunde, já que o barato da vida é justamente essa fusão de sonho com "realidade", das "esperas" com a ação.

O livro também fala de amor, e a propósito deste tema, fui ver o filme - Amor ? - de João Jardim. No filme, os atores estão excelentes, embora nem todas as histórias sejam tão intrigantes quando o questionamento que o título faz supor. O filme apresenta um amor (?) em sua vertente mais primitiva, e egoísta também. Coloca em cena um certo amor humano, nem sempre tão elevado.

A partir do filme, e do livro, penso que a felicidade talvez repouse na tentativa de acolher e equilibrar nossos instintos mais primitivos - que, SIM, são calcados no desejo como falta – e também na busca de certa transcendência dessa nossa natureza humana.

No livro, o autor interroga se amor seria mesmo isso que nos leva a dizer "te amo", "te adoro" ou "te quero". Essas formas de declarar nosso querer carregariam, nelas mesmas, o desejo de posse, que faz naufragar tantos e tantos encontros amorosos.

O bebê quer possuir o peito da mãe, a criança quer o brinquedo da vitrine... Uma criança não olha a boneca e pensa "fico feliz por você existir, boneca". A criança quer a boneca, para ela! O menino quer a bola, para ele! E isso já vem com a gente. O desejo como necessidade daquilo que falta, necessidade de possuir, de tornar nosso.

Acho que a felicidade talvez esteja mais próxima de um equilíbrio entre essas forças complementares e até mesmo opostas. Entre o amor "desesperado" e a necessidade de acolher esta espera, esta falta – dizendo, sim!, "te amo, te adoro, sinto a sua falta”... Gostar envolve uma falta. E qualquer tentativa de negá-la me parece uma forma de tentar refutar o que nos é mais elementar.

A falta (e, com ela, a esperança) movem a humanidade: não apenas paralisam.

Me parece que alguns livros e filosofias giram em torno da tentativa de minimizar toda uma espécie desconforto que (também) é da vida, e do amor.

Que a sabedoria do desespero possa ser incorporada à nossa espécie que (felizmente) espera e se desespera. Não para reforçar um modo de vida pragmático e sem vigor, mas para tornar mais rica, bela e perturbadora esta falta que nos impulsiona.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Salve Salvador: da mortalha ao império do abadá


O “bloco” do Obama passou pelo Rio, estamos quase no período de Páscoa – festa que condena a carne... e o carnaval já faz tempo acabou. Acabou? Este ano, estive em Salvador. Há cerca de 35 anos¸ meu pai também passou por lá. Hoje, um abadá para assistir ao trio da Ivete, conhecido como Coruja, custa cerca de R$ 800. Naqueles outros tempos, meu pai se divertia dentro de um pano chamado de mortalha, adquirido por uma ninharia, e que dava uma espécie de passe livre pela folia baiana. A mortalha era apenas um charme, um toque, e não um pré-requisito para pular o carnaval. Entre a mortalha e o abadá rolaram, portanto, algumas décadas, muito dinheiro e grande parte da espontaneidade de uma festa que há tempos não é do povo.

Hoje em dia, entre o povo e os que pagam – caro – para acompanhar de perto seus trios, existe uma corda. A corda demarca uma espécie de sesmarias conquistadas pelas camadas mais abastadas que desfrutam do carnaval. A corda simplesmente torna mais caro o metro quadrado que existe ao redor do trio. Quem pula carnaval dentro da corda, conquista uma remota sensação de segurança, e de alegria. Mas a chamada “pipoca” – nome pelo qual é conhecido o espaço povoado pelos desprovidos de abadá - me ofereceu na Bahia alguns dos melhores momentos do carnaval. Andando ao lado dos “filhos de Gandhi”, acompanhando as pessoas na mais contagiante “muvuca”, pude migrar de um bloco a outro, ainda que com alguma dificuldade, e curtir o carnaval de outro ponto de vista. Muito mais democrático.

Para os que dizem ser “perigoso”, alego que Salvador está muito bem policiada, ao menos durante o carnaval. Volta e meia passavam filas de policiais marchando, e o baiano parece se orgulhar muito da festa, e curtir também. O que fez falta foram latas de lixo e banheiros químicos. Ao que parece, quem não tem abadá também não tem espaço para descartar seus resíduos.

A Bahia é uma espécie de parque temático do carnaval. Ou, poderia dizer, a indústria do carnaval é uma espécie de “Disney” baiana. Nesta época do ano, Salvador se transforma para abrigar pessoas das mais variadas partes do mundo, com toda uma infra-estrutura que torna seguro o processo de compra, venda, recebimento e também customização (!) de abadás. Só para pegar o meu, eu levei cerca de 20 minutos para ir e 20 para voltar de um centro de convenções. No local onde pegamos o abadá, passamos por pelo menos quatro guichês, protegidos por seguranças munidos de walk talks, trajeto que eles chamam de “Check in de abadá”. Com este paninho em mãos, que nada mais é do que uma blusa com o nome do seu trio ou camarote, você atravessa um corredor cheio de lojinhas.

Quem disse que só o Mickey tem sua linha de produtos, levando o desenho daquelas características orelhinhas? O Chiclete com Banana também deixa sua marca, no caso, uma patinha símbolo do bloco Camaleão, em bolsas, blusas, carteiras... Enormes pôsteres estampam a cara dos integrantes do Asa de Águia e seus colegas de folia, todos cultuados como reis e rainhas da festa de Momo.

É impressionante, nos comerciais de tevê, aparecem Ivete, Cláudia Leite e demais divas do carnaval passando recados de utilidade pública e reforçando mensagens sobre a importância do uso da camisinha e do aleitamento materno. Nos camarotes, e mesmo nos trios, rola solto o patrocínio. O carnaval é das marcas de cerveja, refrigerante, banco ... Tudo parece convergir para o merchandising.

Dentro do meu abadá, tive que disputar espaço no trio com mulheres caracterizadas como cheerleaders. Balões de gás em punho, elas faziam coreografias em nome de uma marca de celular. Os trios, bastante sofisticados, com letreiros luminosos e até bichos e personagens infláveis, até se assemelham a carros alegóricos, ou mesmo aos símbolos dos parques temáticos americanos.

Mas a verdade é que não posso reclamar... Pude acompanhar Daniela Mercury de dentro de um taxi, enquanto chegava ao circuito praiano do carnaval, intitulado Barra-Ondina. O rádio me trouxe certa sensação de nostalgia. Salve salvador/me bato me quebro todo por amor/eu sou do Pelô / o negro é raça é fruto do amor...

Mas a lembrança foi embora de táxi. Já no chamado circuito, pude observar que do alto dos trios elétricos personalidades como Hebe Camargo hoje fazem a festa. A mídia atribui a essas pessoas alguns dos “pontos altos” do carnaval (talvez pela altura que de fato separa as estrelas do restante da população). Não posso lamentar: as músicas mais antigas são reprisadas, se não pelo artista original, certamente pelo seu cover, ou clone. Cheguei a tirar foto de uma mulher e um homem, com a voz parecidíssima com Mercury e Brown, mas logo me informaram que não eram os originais. Eram as cópias. Uma coisa é certa: sob o ponto de vista de quem comanda alguns dos trios, o carnaval baiano é uma riqueza só.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Para além da implicância


"Os holandeses têm por cultura implicar. Detesto gente implicante", ouvi recentemente de uma amiga na praia, comentando a respeito de um ex-ficante. Minha amiga falava sobre uma implicância cultural, reforçada e repassada geração após geração. Nunca tinha parado para refletir sobre a gaiatice dos holandeses, mas este comentário me fez pensar naquela implicância cotidiana, corriqueira, que por vezes apimenta, e por outras mina as nossas relações mundo afora.

O jornalista Artur Xexéu é mestre no estilo implicante. Gosto dele. Acho debochado na medida certa. Mas por conta disso, claro, deve colecionar muitos desafetos. E quando a implicância transborda o campo profissional e passa a inundar a nossa vida pessoal, quero dizer, a relação entre amigos, namorados, maridos e mulheres?

Já parou para pensar se você é um ser dotado do germe da implicância? Eu sou. Mas tento manter a minha em um nível saudável. Em geral, esse filhotinho de alfinete - que também pode ser traduzido como alfinetada, pinimba, picuinha - é acionado por motivos totalmente passionais. Implicância costuma ser ativada de maneira automática, impulsiva, quando nos deparamos com ideias, comportamentos ou valores que colidem com os nossos.

Já parou para pensar? Quem pára para refletir no meio do ímpeto de alfinetar, acaba não implicando. A verdade é que existem muitas formas de manifestar discordância diferentes da provocação e do deboche (que nada mais são do que vertentes da implicância). Implicância, dependendo da situação em que é acionada, pode beirar a falta de respeito, de capacidade de ouvir o outro. Em algumas situações, se impõe como uma forma de poder. Quem implica demais, desqualifica. E talvez esteja apenas camuflando a sua própria insegurança.

Nas relações entre casais, defendo a implicância do bem - aquela leve, que é na verdade um afago - em doses homeopáticas. Se ela vem a serviço do humor (esse sim saudável, pacífico e brejeiro), bendita seja a implicância! Às vezes, a gente se leva demais a sério - e quando o outro nos lembra do lado bobo da vida, com uma implicanciazinha bem humorada, tá valendo! Também é comum aparecer esta implicância, que é carinho, quando algo nos diverte ou surpreende. Mas em diversos outros casos, ela só nos afasta dos amigos, e enclausura em uma pretensa torre de "sabedoria". É comum a implicância se disfarçar, revestindo-se de muitas boas intenções para ficar parecendo bacana.

No meu caso, implico por puro carinho, ou ainda com pessoas/comportamentos pedantes, por exemplo. Tenho implicância com quem se acha dono(a) da verdade, ou mais esperto e sabichão do que os outros. O indivíduo pode até "se achar", mas tendo a antipatizar com ele se for avesso ao debate, ao diálogo - ou seja, se não souber ouvir, relativizar, ponderar. Sou pela simplicidade, pelas ideias inacabadas, por vezes até mal expressadas, mas que transmitem uma verdade, uma reflexão genuína.

Escrevo isso tudo também a propósito de uma crítica que li sobre o filme Bruna Surfistinha, estrelado por Debora Secco, e que foi alvo de muitos comentários implicantes. No caso da (bem escrita e fundamentada) crítica em questão, de Rodrigo Fonseca, fiquei com vontade de ver o filme (por pura implicância, talvez eu não visse, se não tivesse lido o texto).

Antes que eu, virginiana implicante por natureza, fique com pinimba deste post, finalizo com a provisória conclusão de que muito mais interessante é descobrir o ser humano existente para além da implicância. Digo isso porque tem gente que vira a própria implicância e torna-se um verdadeiro personagem (aquele que talvez esteja apenas disfarçando uma timidez, desconforto ou insegurança). Eu gosto da implicância do bem, que serve para aproximar, quebrar o gelo, apimentar os debates, fazer rir e refletir. Uma, favorece a existência, a outra, é nociva à convivência.

domingo, 23 de janeiro de 2011

A doçura de Chaplin, Amy e a agenda




Soube que o pai da Amy aparece em um documentário filmando a própria filha. Ela é pega de surpresa e fica incomodada por estar sendo flagrada, sem permissão, pelo seu progenitor. Pensei então que “ninguém merece” um pai desses. Putz. Igual ao pai de Michael Jackson. Cara de pau ficar dando entrevistas como se fosse o melhor amigo do filho, tirando casquinha da estrela pop.

Não conheço quase nada sobre o pai da inglesinha . Mas ele aparece na letra de Rehab “And if my daddy thinks I'm fine / He's tried to make me go to rehab / But I won't go-go-go”.

Será um caso de birra infantil a moça não querer se tratar? Estou brincando, claro... Mas vejam na foto como Amy, se deixasse de ser birrenta, poderia ser tão bela mulher. E quando digo que ela deveria dizer “sim”, eu me refiro ao retumbante “sim” que devemos diariamente dizer à doçura de nós mesmos. A reabilitação seria apenas uma conseqüência.

Seguindo uma linha de "análise" mais pragmática, talvez a reabilitação de Amy como artista dependesse também de posturas mais agressivas da platéia. Em vez de risos e aplausos, oferecer limites à moça. Quem sabe uma poderosa vaia? Para o amadurecimento artístico, talvez fosse um caminho. Um público mais rebelde para que a menina fique menos, digamos, "mimada".

Por falar em mimo e doçura, faço agora uma singela homenagem a Chaplin (os passinhos da cantora me fizeram também lembrar dele). Em certas situações, o silêncio vale mais que mil palavras.

Por exemplo, eu estava doida por uma agendinha, dessas que tem frases e poesias espalhadas pelas páginas, mas não encontrava em lugar algum. Minha irmã, militante de esquerda, vende dessas agendas, para arrecadar fundos para o partido. Mas eu queria uma com a capa do Chaplin, e não tinha mais. Tristeza... Estava com uma estranha sensação de que meu ano ainda não havia começado, sem aquela agenda.

Eis que de repente, não mais que de repente, ganho de presente a tal da agenda, justamente com Chaplin na capa... A pessoa que docemente me presenteou não tinha como adivinhar este meu tão secreto anseio. Mistérios da vida. Fiquei sem palavras...

Deixa a menina crescer!


Fui ao show da Amy Winehouse. Gosto da moça porque ela manda às favas as boas maneiras, não quer ser exemplo de nada, tem algo de autêntico e indomado. Tudo isso sem contar, é claro, com o vigor da sua voz. Mas é Amy quem leva o show ou o show que leva ela? Marco a segunda opção. Triste ver uma cantora tão refém da própria imagem. Claro que é ela a maior responsável pelo seu estágio de alcoolismo e entorpecimento. Mas fica a sensação de que a platéia e o show business aplaudem e jogam amendoim justamente para a moçoila largadona, ferradona, como se toda aquela bagaceira fizesse parte do show.

"O que será que ela vai aprontar agora?", concentrava-se, apreensiva, a platéia. Alguns achavam muita graça, vibravam até. Então Amy retorna de sua jornada rumo aos subterrâneos do palco com uma garrafa na mão, e um caminhar à la Charles Chaplin embriagado. Dando pulinhos como uma criança serelepe, meio perdida no meio daquela cena, a inglesa agarrava os amigos da banda pelo pescoço, visivelmente fora de si.

Amy delegou aos amigos um pedaço do show, esqueceu trechos das letras, se distraiu com as luzes do palco e, mesmo assim, o público de modo geral parece se sentir recompensado. "Ufa! Ela não abandonou o palco antes da hora!!". "Qualquer quinze minutos de Amy já vale à pena", eu li num jornal. Triste o povo que precisa de shows como este.

Eu fui, me diverti, mas não posso dizer que Amy mandou bem. Ela poderia ser tão mais... Amy. Pena que não ajudem a menina a crescer. Pena que Amy ainda não tenha se apoderado de si e da pujança da própria voz. Numa espécie de irreverência às avessas, encorajada talvez pela legião que a acompanha, ela segue bradando no and no and no.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Se chorei ou se sorri o importante é que emoções...


Assistir ao Rei Roberto Carlos cantando, sentadinho na sua cadeirinha no palco fincado nas areias de Copacabana, iluminou minha alma com aquela sensação gostosa de que o que vale mesmo nesta vida fica marcado na gente. Nem adianta... O que vale mesmo nesta vida segue nos acompanhando, não importa o perrengue, a rotina, a violência urbana, os maltratos ao coração...


Final de ano... época boa para fazermos uma retrospectiva das nossas vidas, separando o que foi bom do que não foi tão bom assim. O meu ano passou com muita correria, muito trabalho, muitas horas de sono e cansaço acumulado. Tentei seguir para um lado, a vida me empurrou para outro, e quando procurava trilhar certo caminho, esbarrei numa onda que me fez ficar por mais tempo deitada na areia, mirando o horizonte.


Final de ano, época para a gente reafirmar nossos desejos. O meu desejo para 2011 é bastante singelo: eu quero paz de espírito. Quero estar a cada dia mais próxima do meu próprio ser, ouvindo os meus murmúrios como barulhinho de riacho, sentindo a minha alma tão viva como água gelada de cachoeira.


O desejo é singelo porque só depende de mim. Do meu esforço pessoal para me dar as mãos e não me deixar esmorecer, jamais. Mas não disse que será fácil. A tal da onda vem e teima em nos tirar de nosso próprio eixo e controle. Portanto, o desejo por paz de espírito é extremamente desafiante.


O meu desejo é fazer escolhas que me deixem plena, sem angústia no peito e a sensação de estar trancada em casa estranha com os meus mais queridos pertences jogados na rua, lá do lado de fora. Desejo não perder tempo com tolices, bobagens. Com gente superficial que não curte se doar.


Que 2011 traga muitas experiências divertidas - algumas eu vou narrar neste blog. E que você, meu querido leitor ou leitora, também se encontre consigo mesmo e aperte muito suas próprias mãos. Caminhe bem pertinho de si, sorrindo para as dificuldades, porque elas passam, claro que passam!!

E o que fica, sempre, é o Rei. O Rei é o que há de melhor em nós mesmos. Não me refiro ao Roberto, de quem nem sou tão fã assim. Refiro-me ao nosso próprio Rei, ops!, eu interior. Àquela criança lambuzada de picolé, embriagada de água salgada do mar, que está sempre seguindo suas próprias vontades, gargalhando sincera para o que ama, e saindo correndo daquilo que não aprecia. Que esta criança, na sua porção saudável e majestosa, possa nos guiar em nossas escolhas, em 2011.


(...)

Agora voltando ao Roberto ... qual o segredo que reafirma, entra ano e sai ano, a sua realeza? Ele fala de amor, do modo mais simples, com toda aquela aura de dignidade, sabedoria e franqueza. O Rei tem um tom brejeiro, a voz mansa e pausada. Já sofreu por amor e não tem vergonha de cantar essa experiência, que é dele e de todos aqueles que lotaram as areias de Copacabana. Isso porque, claro, o lema do Rei é "se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi".

O Rei Roberto, e os Reis interiores que habitam nossos seres.... eles se importam. Alguém duvida? Eles se afetam, se comovem, se alegram, enfim, eles desejam. Em nada lembram certa atmosfera blasé que impregna por vezes esta nossa rotina.

Que 2011 traga para todos muitas, e boas, e fortes, serenas e profundas, emoções. Isso porque "o que fica", como disse outro dia, em uma mesa de bar, o meu amigo Felipe... é o amor.

sábado, 27 de novembro de 2010

Violência no Rio: o bem, o mal, os ovos e o carioca da gema


Esta semana o governador do Rio declarou que "não se faz omelete sem quebrar ovos", em referência à reação incendiária ao cerco ao tráfico nas favelas. Imagens de carros e ônibus em chamas tomaram conta da tevê, das páginas do jornal, e do imaginário dos cariocas. Para desanuviar a minha manhã, divertindo-me um pouco a caminho do trabalho, um locutor de rádio disparou, diante da fala do governador: "de quais ovos Cabral está falando? Os dele? Da família dele?". Certamente não. Nem o de Cabral, tampouco o de Colombo (que, aliás, teve que ser quebrado para ficar em pé, como nos diz a célebre anedota).

É fato, como indica a metáfora do ovo de Colombo, que depois de solucionados os desafios até se parecem fáceis. Mas a verdade é que livrar tantas favelas do tráfico é quase tão complexo quanto manter ovos em pé, sem grandes estragos.

Pensando em tudo isso, tenho enfiado nos pés, nessas últimas manhãs periclitantes, minha super bota de cano longo de borracha. Sentindo-me tal qual a Mulher Maravilha, viajo no coletivo rumo ao incerto (e longínquo) território onde fica o meu trabalho. Chego a hesitar ao refletir que as botas, perante um súbito ataque inimigo, facilmente se derreteriam em chamas. Mas, felizmente, embarco nesta reflexão sobre ovos, esperança, o bem, o mal, e a sobrevivência dos cariocas da gema.

É bacana, e bonito, ver toda essa mobilização no Rio de Janeiro em torno da ocupação de favelas como Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão pela polícia. Ainda que parte desse esforço tenha sido impulsionada pela necessidade de se colocar alguma ordem neste "purgatório da beleza e do caos" por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Ainda que possa ser (mais um) lance de marketing do governo do estado para responder às classes mais facorecidas, que também estão tendo seus carros queimados pelas vias públicas, e suas famílias amedrontadas por seres com galões de gasolina em punho.

É bacana, e bonito, ver esta cidade que parece às vezes ter brotado, sem pai nem mãe, da gema de um ovo, se unindo em torno de uma preocupação em comum, que é o restabelecimento do controle de seu próprio território, de seu próprio destino.

O carioca, de maneira geral, é pouco politizado e mobilizado pelas questões da cidade, com exceção das eternas juras de amor à beleza natural de nossa geografia. Mais eis que, subitamente, todos parecem se preocupar com o que se passa em nossos relevos, para além da acolhedora imagem que paira, braços abertos, sobre a Guanabara.

Nesta semana em que o badalado "Tropa de Elite 2" caminha para ser o filme nacional mais visto de todos os tempos - recorde creditado a "Dona Flor e seus Dois Maridos" - nada mais simbólico do que a repentina euforia da população em torno da nossa polícia, de nossos capitães Nascimento. Em torno da força quase redentora dos poderosos caveiras do Bope.

Neste momento, no entanto, precisamos ter cautela para lembrar que não se trata de uma luta do "bem" contra o "mal", como tem sido veiculado em alguns veículos de imprensa. A população destas comunidades está apoiando a ação? Que bom. Mas não sejamos tolos: a eficácia de uma ação como esta depende de uma visão bem menos pueril do que uma divisão tão primária dos seres humanos entre dois times. Quer dizer então agora que a polícia se tornou a personificação do bem? Hum... quase todos sabemos que não é (tão) bem assim.

A imagem do bem contra o mal é bastante sedutora, e se ela está servindo para aglutinar as forças cariocas da gema em torno de uma "torcida" em comum, ok, tem lá o seu lugar. Mas que a gente possa identificar o bem não apenas com alguns bravos policiais (que certamente existem por aí), como também com a justiça social. Com a libertação dessas pessoas para a verdadeira cidadania.

Que a favela possa ser ocupada pela atenção da gente, aqui do asfalto, não somente quando ameaça esfumaçar nossos destinos.

É bacana, e bonito, ver a solidariedade do povo das favelas. Que mesmo com tão pouco a oferecer, não raro procura compartilhar o pouco que tem com estranhos. Na favela, vemos gente que fala com os vizinhos de porta, que manda o filho para a escola e que rebola, dia a dia, para a criança não virar traficante. Essas pessoas estão agora, mais do que quaisquer outras, no meio do fogo cruzado, muitas sem casa, e sem luz. Que o Estado possa, realmente, se ocupar desses territórios.

Mesmo nos intervalos dos anúncios da tevê.

É um belo momento para todos nós, cariocas, repensarmos a cultura da nossa cidade, saindo da casca do ovo, e recriando essa parte da nossa história tão partida.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Os homens são de “morte” – e é pra lá que eu vou! – comendo, rezando, amando...






Com alguns anos de atraso, finalmente fui assistir à peça “Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou”. Que felicidade descobrir a excelente e hilária atriz Mônica Martelli. Enorme no palco, em altura e sagacidade, a Mônica transformou a angústia feminina em motivo de sorriso, gargalhada, e muito bom humor.

A atriz está em cartaz agora na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Para quem é meio “ET” como eu (resiste em ver as coisas no auge da badalação e até hoje não assistiu ao espetáculo) recomendo muitíssimo. Bom programa para o final de semana – inclusive se você tem namorado(a) ou é casado(a), já que a peça é uma reflexão divertida e generosa sobre a eterna busca do amor.

O espetáculo tematiza esta procura incansável por parte de uma mulher que não tem medo de se lançar, como “kamikaze”, nos braços dos seus “marcianos”. A personagem Fernanda se envolve com os mais variados tipos de homem. Sempre pensando: “finalmente, agora eu en-con-trei o caaarraaaa!”. Mas o que ela coleciona são alguns punhados de desilusão que tornam a sua vida ainda mais inquietante e desafiadora. Vejam só um trecho da resenha da peça:

“O tempo que ela gasta com os homens daria para ter dado uma volta ao mundo e ainda ter estudado a história de todas as civilizações.”

Você já refletiu sobre isso? Eu já. Às vezes penso que poderia ter lido a obra toda de Proust, em busca do tempo perdido com desencontros de amor.

Em vez de Proust, tenho lido – também com algum proposital atraso e relutância – o best seller “Comer Rezar Amar – a busca de uma mulher por todas as coisas da vida na Itália, na Índia e na Indonésia”.

O que une a americana Elizabeth Gilbert, autora do livro, e a brasileira Mônica Martelli, atriz e autora da peça? Uma temática “mulherzinha” que encara o homem como a força motriz do universo? Claro que não! O que ambas colocam em foco é a busca do amor como a procura por algo mais verdadeiro em si próprias.

Aí está a força dessas mulheres, que souberam universalizar os seus “dramas” transformando-se em sucesso de crítica e de público.

De um lado, o livro, contando as vivências de uma americaninha balzaquiana que decide romper com um casamento “bem-sucedido” aos olhares externos, em busca do “coração selvagem da vida”. Gilbert se lança pelo mundo à procura de seus prazeres mais autênticos, sejam eles degustativos, ligados à espiritualidade e ao amor, em amplo sentido. Essa aposta não se faz sem dor. Nasce do desamparo, e da solidão, comum a todos os seres humanos. Nasce daquilo que tentamos negar ao longo da vida, por meio de um casamento, um bom emprego, e de filhos bem situados.

Do outro lado, a peça. Uma atriz que tematiza a solteirice como momento, igualmente, de grandes descobertas. Martelli e Gilbert são mulheres espirituosas, que me fazem sorrir.
Que este post seja agora uma homenagem às duas. E às Marinas, Virgínias, Clarices...

O que ambas tematizam é a força existente no desamparo e na solidão comum a todos nós, homens e mulheres. (Comum, inclusive, aos homens de morte – ops! de marte).

Neste sentido, afirmo feliz: habitamos o mesmo planeta.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Anjo tonto

Quando eu nasci, um anjo tonto - desses que vivem na sombra - soprou no meu ouvido: vai lá, Julia, agir sem defesas na vida! Ama a teu próximo como a ti mesma. Se o próximo for querido, tente acolher suas falhas, seus tropeços. Seja amorosa, franca, afetiva. Não sinta raiva, porque a raiva corrói a alma, e o coração. Exponha os seus sentimentos e salte de cabeça, se achar que vale a pena.

Acontece que o anjo nem sempre tem razão. Faz bem a gente sentir o coração batendo mais forte. Mas se a afetividade do outro “ser” não corresponde à sua, saia correndo!

Experimente fazer como o personagem de Tom Hanks em "Forrest Gump": simplesmente, corra. Ainda que, a princípio, sem direção. Encha os pulmões de ar, reze uma novena, medite enquanto corre. E siga correndo.

Mulheres têm por vezes um estranho gosto pelo papel de psicóloga. Mas, francamente: a profissão é desgastante e, fora do consultório, não traz qualquer recompensa.

Outro tipo de encruzilhada é a que se trava entre um ser humano comunicativo, que gosta de falar sobre o que sente, e outro que não sabe sequer o que sente, que muda a cada segundo, e não tem interesse em se fazer compreender (nem mesmo em se compreender). Para onde vai este diálogo? Existe diálogo? Ruído permanente.

Não adianta. Antes de se perguntar quem é o “outro” que te acompanha, pergunte a si mesma: quem é você? Com que tipo de “outro” deseja andar? E para onde deseja andar?

Eu aprecio as verdadeiras relações. Adoro trocar, me comunicar, me fazer entender. Buscar compreender. Portanto, se o barato da “figura” não é esse... fuja! E exercite o que um ex namorado meu (já que estávamos falando deles no post abaixo) me recomendou outro dia: emitir o famoso f.....da-se!

Sentir raiva faz muito bem. Em certos momentos é libertador.

Os anjos no fundo sabem que o nosso afeto a gente só deve endereçar a quem realmente merece. E se o mundo carece de afeto (ah, tão pouco afeto no mundo...) problema dele! Para merecer o seu, é preciso continuar merecendo. Diariamente. Constantemente. Permanentemente.